Era tanta selva antes de tudo começar que cada passo dado ao custo de uma faconada guardava a esperança de que se encontraria o Eldorado. Isso aconteceu no início da década de setenta, na Amazônia mato-grossense, e o Eldorado era um mito de uma cidade inca ou asteca perdida, cujas paredes eram de ouro e pedras preciosas. A Amazônia era tão extensa e inexplorada que esse mito era possível de ser fantasiado. Vendia revistas.
Para o desbravador que manejava o facão, para o capataz que organizava a tropa que vinha atrás ou para o migrante que enfrentava um ou dois dias num ônibus precário por uma estrada de poeira ou lama, encontrar os povoados que se formavam no meio do nada era como achar o tal Eldorado. Eram ambas cidades perdidas.
Eu cresci em uma dessas cidades. Chama-se Sinop. Tem nome de sigla. E não devia ter duas dezenas de milhares de habitantes quando fui para lá, criança, em 1981.
Lá tudo precisava ser feito. Da primeira escola, com paredes de tábuas vazadas, à igreja de tábuas com beirais assimétricos, tudo era feito com o que se tinha: a madeira das árvores.
Na verdade, foi essa madeira que salvou a todos. A cidade começou como um projeto de colonização incentivado pela cultura do “ocupar para não perder” do regime militar e propôs que lá fosse cultivado café e cana-de-açúcar, ou batata, para alimentar uma usina de álcool. Mais tarde, cheguei a encontrar reportagens da época no arquivo da Folha de S.Paulo que propunham que a tal usina, a maior da América Latina, seria crucial para o programa de álcool como combustível automotivo. Deu errado. Nem café, nem álcool, nem batata. O que se conseguia produzir eram tábuas, vigas, ripas e longarinas.
A comunidade se organizou em torno disso. Ninguém tinha dinheiro. Todos muito pobres, igualmente. Mas alguns se encarregaram de encontrar e derrubar as árvores. Outros, de serrá-las. Aqueles que as entregavam em caminhões no sul do país traziam mantimentos, materiais para que a cidade se construísse. Quem não estava nessa cadeia de produção diretamente colaborava indiretamente. Mas todos eram necessários. Cada trabalho.
Até nas horas de folga. Clubes de serviço, associações, clubes de mães. As pessoas se juntavam e se organizavam para fazer aquilo que precisava ser feito. E deu certo. Hoje Sinop não é só conhecida por ter sido a cidade cujo clube revelou o goleiro Rogério Ceni. Hoje é um importante polo regional, representante respeitado do agronegócio brasileiro.
É uma cidade rica. Ou, ao menos, uma cidade que possui muitos milionários. É deles que se trata a crônica.
Com todas as pessoas igualmente pobres, aqueles que se apresentavam como garantia de que trabalhariam arduamente, e com competência para que o trabalho fosse feito, ganhavam a chance de comprar terras que seriam pagas com a madeira que delas seria retirada. Mais tarde, com o declínio da abundância dessa matéria-prima, o mesmo era oferecido àqueles que garantiam uma produção de arroz, milho ou soja por vários anos, até que a dívida pela terra fosse devidamente quitada.
Conheci várias dessas pessoas. Tinham coisas em comum. Eram, além de trabalhadoras, tão sérias com seus papéis a ponto de raramente se dedicarem ao lazer ou a outras coisas de caráter pessoal. Assumiam o posto que lhes era confiado. E precisavam, pois o fracasso de algum deles significava que o recurso que poderiam trazer para a cidade não viria. E as pessoas dependiam daquilo para viver.
Desde o início, essas pessoas eram bem-quistas na comunidade. Mas, com o desenvolvimento do agronegócio no país e com a regulação fundiária, aos poucos o valor de suas terras foi sendo mais bem precificado. Na segunda década do novo milênio, eles já eram considerados milionários e passavam a ser reconhecidos também pelas pessoas de fora daquela, até então, isolada cidadezinha no meio do nada.
Quando saía alguma reportagem nacional sobre algum desses personagens, ou de algum de seus feitos, a celebração era comunitária. Mesmo que a riqueza ficasse absurdamente concentrada nas mãos deles e de suas famílias, ninguém os via com maus olhos. Muito menos com inveja — esse pecado capital. Aqueles fazendeiros milionários mereciam o sucesso. Trabalharam arduamente e colaboraram para o bem comum.
Talvez também tenham tido sorte, porque nem todos que fizeram o mesmo que eles tiveram a mesma recompensa. Ainda assim, é o exemplo deles que me vem à mente sempre que ouço a palavra meritocracia.
Ainda que mais tarde eu tenha visto outras definições, mais técnicas, sobre critérios para seleção de cargos ou promoções, essas definições nunca conseguiram sequer igualar o significado que compreendi com os exemplos dos meus então vizinhos.
Mas, lendo o livro Coisa de Rico, de Michel Alcoforado, vi, documentada em uma tese de antropologia, uma outra versão para um conceito vago de meritocracia — ou, se não leva esse nome, para o orgulho de se ser o que se é. No livro, o autor fala da idealização das pessoas em serem bem-nascidas.
Ser bem-nascido significa acreditar que se tenha, como parte de um destino (genético?), o sucesso garantido. Ou melhor, não totalmente garantido. É preciso que se aproveite a oportunidade. Se sua casa é frequentada pelos maiores empresários do país, cabe a você se esforçar para com eles negociar. Se você cresceu no colo dos maiores nomes da música brasileira, cabe a você mostrar o seu talento nato e se tornar um astro do rock da sua geração.
Talvez seja nesse sentido que a situação se aproxima do conceito de meritocracia. É esse adendo, esse complemento, de que algum esforço se torna necessário para que o sucesso seja obtido. Afinal, nada vem de graça na vida, exceto as oportunidades.
E esse orgulho por ter acesso às oportunidades transborda nas famílias ricas, inundando a cultura pop. De livros a colunas de fofocas, de clubes tradicionais a perfis de socialites que ensinam etiqueta, o que os alimenta é a felicidade de poder compartilhar as gostosas formas de aproveitar as boas coisas que a vida traz para quem tem a sorte de ter nascido bem.
O conflito entre as diferentes visões de se sentir orgulho de quem se é já rendeu boa diversão. Era um tema clássico de novelas, assim como um arquétipo recorrente no humor. E um dos bons argumentos sempre foi o desprezo que um grupo nutre pelo outro.
Não duvidem. O desprezo é recíproco. Isso porque, para um, o orgulho é ter tido a sorte de contar com oportunidades que não são para qualquer um — são para pessoas especiais. Já para o outro, o orgulho é ter conseguido vencer os desafios e obstáculos de uma dura jornada.
Não cabe aqui dizer a quem pertence a razão. Na verdade, a vida é tão complicada que ninguém tem o direito de dizer do que o outro deve sentir orgulho. Não serei eu a fazer isso!
Até porque, apesar das desavenças, ricos antigos e novos se juntam para defender a meritocracia. De alguma forma, conquistadas por esforço próprio ou por direito de nascença, privilégios são mimos que precisam ser protegidos.
E, nesse caminho, é comum surgirem algumas gambiarras argumentativas: “Meu pai foi o cara! Meu mérito é ser filho dele!”
Só que, neste último caso, no caso de uma meritocracia herdada, o problema não é moral. É cognitivo!
