Quando surge um escritor? Quando escreve, quando publica ou quando se é lido?

Aparentemente uma questão irrelevante. Entretanto, ela se fixa no inconsciente de quem escreve porque martela a identidade. No fim das contas, deriva para outra questão, mais incômoda: eu sou um escritor?

Aceitar-se escritor tem consequências práticas, materiais. É preciso aceitar-se escritor para poder se dedicar à arte de esculpir, em palavras, aquilo que se observa e sente. Apesar do mito do talento nato ser um acalanto tão gostosinho ao ego que dele se permite uma dúvida enfiada no fundo da mente – mesmo lugar onde se enfia o desejo envergonhado de neste conceito se encaixar, o ofício de tentar carregar as experiências com o real para um campo do simbólico ou imaginário que tenham intersubjetividade não é algo que se caia do céu. É preciso esforço. É preciso dedicação. É preciso trabalho.

E trabalho exige tempo!

Nessas épocas da economia da atenção, o tempo é o único ativo verdadeiramente valioso. Deveríamos, nós pretensos escritores, inseguros de nossa categorização, dedicar nosso valioso tempo à nossa escrita?

Por mais que a resposta seja algo subjetivo, um desejo ao qual cada um deve bancar, talvez aprofundar as possibilidades de resposta à pergunta inicial seja um caminho…

Se é escritor ao se escrever? Ipsis litteris, sim. Escritor é quem escreve. Ponto!

Mas quem se pretende escritor não tende a pensar em si como um bom manuseador da técnica da escrita. Bom, acho eu! Talvez os doutos nas artes da literatura discordem, vide a intensidade com que analisam, categorizam e hierarquizam quem se atreve a escrever, como se da escrita houvesse correlações suficientemente fortes para que um autor pudesse ser comparado com outro, numa escala indubitável.

Eu sou mais dos que acreditam que escritor é quem tem ideias originais. Mas esse costuma-se chamar de autor…

Então, talvez aí haja um caminho: para quem do clube acadêmico se esquiva, ser escritor pode ser uma combinação mais simples – é aquela pessoa que vê e que sente, e que dá forma em palavras! É quem constrói visões originais da vida!

Se essa definição for aceita, então, viva! Temos a possibilidade de sermos escritores tão somente ao escrevermos!

Confesso que é a este conceito que me apego, afastando os medos, os receios, as vergonhas, a timidez e toda gama de sensações que sabotam minha escrita e minha identidade. Esqueço o mundo, escrevo e existo!

Mas sou escritor por mim só validado.

Ser um escritor que o outro assim me reconheça exige que eu seja lido.

E aí se implanta um paradoxo: escrever porque se vê o mundo de um modo singular, ou escrever para que a escrita encaixe no modo que o outro a vê?

Um paradoxo que, porventura, equivale ao que Riobaldo e Dorian conceberam, e Fausto assinou com sangue: um pacto com o Diabo, a venda da alma.

Se o escritor desejar o sucesso dos muitos livros vendidos, é preciso que muitos leitores o admirem a ponto de seus dinheiros oferecerem por suas obras. E o caminho de sondar o que estes leitores querem ouvir é a forma pragmática de lidar com isso.

Vá por mim. Não tenho formação de escritor. Tenho-a no mundo nos negócios. Se queres ganhar dinheiro, descubra o que querem ler, e escreva da maneira mais adequada aos anseios da massa. Se queres fama, escreva para quem tem o poder de forjar reputações.

Mas, ao fazê-lo, terá, invariavelmente, que abrir mão do gigantesco prazer de dedicar-se à nominação daquilo ao que as palavras não tocam! É essa a alma que se oferece ao capiroto!

Talvez, um caminho do meio pelo qual muito trilham, seja sustentar, e bancar pelos próprios recursos, uma trajetória até leitores que possam por suas letras se interessar. É quando decide publicar.

Nisso meu espírito de negociador precisa te avisar: negócios não têm pudores, não têm a alma poética. Antes disso, é a aparentemente fria relação dos dinheiros que entram e que saem o que importa. Digo aparente, porque à fria racionalidade se acumulam emoções. Mas o argumento que mantém as estruturas de publicação ainda assim requer racionalizações. E por isso grandes editoras publicam nomes que já possuam leitores. Vivos ou póstumos, nacionais ou estrangeiros, crentes ou agnósticos, o importante é que o dinheiro usado na publicação se multiplique com as vendas.

Você, querida e querido sonhador, assim como eu que também sonho, nos iludimos se pensamos que podemos garantir essa venda. É por isso que o que nos atrai é apostarmos no nosso sonho.

E nos aparecem empresas disfarçadas de pequenas editoras, com suas propostas de validação, onde alegam nos reconhecer como escritores a troco dos direitos financeiros sobre nossa obra e um montante suficientemente bom de recursos para que possam existir vendendo publicações a sonhadores – e não livros a leitores.

Sempre se pode encontrar alma evoluída que ofereça uma parceria. Estas sim são as verdadeiras editoras, mesmo que pequenas. Mas, professor de contabilidade agindo: uma pequena editora que aposte em escritores iniciantes tem tão poucas chances de obter êxito, que alguém mais prudente em investimentos talvez achasse mais seguro apostar em loterias. Talvez a relação custo/benefício seja mais garantida!

Então, o que resta? A autopublicação pelas enormes estruturas profissionais que estão surgindo? Foi o que eu optei, mas não recomendo até porque ainda não sei dessa empreitada. Faz um ano que me dedico integralmente à função de escritor. Agora que lanço meu primeiro romance. Pouco tempo. Pouca experiência para o tanto de sonho que tenho.

Mas o que posso compartilhar, por experiência própria muito bem vivida neste último ano, é que escrever sobre a forma que vejo a vida, me dando a liberdade de o fazê-lo por puro gosto no fazer, tem me feito feliz e realizado como nunca o fui.

Escrevo porque vejo, porque vivo, e nessa escrita, existo!

E quanto a publicar ou ser lido? É consequência. As opções tecnológicas se mostraram alternativas.

Quanto aos leitores? Eles vêm! Vêm, e eu os reconheço. Eu os saúdo. Eu os agradeço. Pouco importa se são somente dois ou três. Se são mais. Cada vez que alguém me diz do meu texto, que percebo que da minha ideia tomou posse como se dele fosse, com esse leitor eu crio uma simbiose: lhe dou a ideia e ele me retribui com identidade.

Talvez um dia eu possa atingir as especificidades que o mercado exige. Talvez um dia seja publicável, seja notável, seja lembrado. Ou, talvez não. Tudo bem! Não importa tanto!

Enquanto isso prossigo já me sentindo um escritor!