54 – Loucura & Liberdade
Quem visse o sol tentando brilhar sobre o céu cinza naquela tarde paulistana não pensaria ser um dia diferente dos outros dias de março. Mas para o homem que vinha, cabeça erguida e camisa com os botões abertos, peito estufado, braços balançantes pelo corpo enquanto caminhava pela ciclovia existente no meio da Av. Paulista, talvez o sol brilhasse mais.
O fato é que enquanto nós, um grupo aleatório de pessoas, esperávamos o momento em que o homenzinho verde substituísse o vermelho para então atravessarmos a rua, ele chega até a faixa de pedestre e adentra a via.
Ninguém falou nada. Nenhuma buzina.
Os carros diminuíram a marcha enquanto ele passava, e seguiram adiante conforme ele seguia.
Do outro lado da via ele continuou, braços balangantes e cabeça orgulhosa, no seu caminho ao qual parecia ter tanto rumo quanto certezas. E nós, pobres mortais, aguardamos a cor nos liberar.
Não sabia o que me incomodava mais. A ousadia do jovem ou a covardia da gente, que nem ousa atravessar uma vida.
O fato é que as regras de que em uma via de pouco movimento atravessa-se olhando para os dois lados, e em movimentadas se espera o sinal, nos aprisionava por um bom tempo – proporcionalmente maior conforme a pressa. Naquele caso, cinco minutos preciosos para quem estava atrasado.
E ele, porque desconhecia, esquecia ou recusava às regras, era senhor do seu próprio tempo.
Talvez o que me incomodasse fosse a inveja! Queria eu ter a liberdade de poder passar pelas vias movimentadas sem ter que esperar o sinal!
Mas eu não o fazia, porque na minha mente estão gravados saberes que me avisam dos riscos envolvidos. Os carros esperam que eu só entre na via quando o sinal, para eles, é vermelho. Nem lhes passa pela cabeça que uma pessoa confiante adentre a via fora deste combinado. E o combinado não sai caro – eles param, eu atravesso. Eu atravessando, eles não se movem. É tão acordado que está na lei. É tão legislado que se eles me atropelassem seriam livrados de dolo, e de pena.
Os acordos sociais! Tão uteis para que não sejamos atropelados. Tão uteis para que possamos ter nossas casas, nossos bens (afinal, temos a crença de que há uma estrutura policial e jurídica para proteger daqueles que das nossas coisas querem se apropriar). Tão necessários para que possamos colaborar uns com os outros…
Mas tão opressores! Pelo menos, diante da liberdade que o rapaz de camisa aberta tem para fazer o que quer…
E ele nem foi atropelado!
Mas se fosse eu, se fosse você que conhece e obedece a leis, seria loucura.
Aí está! Encontrei o que de fato me incomodou.
Foi o silêncio!
Ninguém falou nada, nenhum carro buzinou. Ninguém gritou “olha aí o louco!”
É como a loucura estivesse normalizada. Do louco não se espera que as leis sejam cumpridas. E o louco, em si, faz parte da sociedade. Atacar o louco, cobrando dele racionalidade, é loucura!
Ou crime.
Houve uma época em que era. Mas na verdade, aprisionavam-se pessoas que desobedeciam a lei, mesmo que a razão disso fosse a incapacidade de compreender as leis. Quando as pessoas, nas cidades da idade média, jogavam seus dejetos na rua, aquilo era normal. Foi só quando quiseram sanitizar as ruas é que aqueles que permaneciam defecando nela, ou por ela andando defecados, é que passaram a ser aprisionados. Nem eram loucos. Eram fora-da-leis.
Só se tornaram loucos, estes que à lei não compreendiam nem se adequavam, quando se tratou de pessoas queridas pelos seus. Talvez daí é que tenham surgido os manicômios.
Eu estudei em um. Fiz mestrado. Não que ele fosse, oficialmente, ainda um manicômio, mas o prédio fora construído para tal. Um prédio luxuoso, suntuoso, para dar uma vida digna aos alienados abastados. Os sem-posses ficavam no porão, gigantesco e com janelinhas redondas com grades de ferro decoradas. Hoje os abastados e os sem posses se dividem em turnos ao ocuparem as salas de aula dos cursos de economia, administração e contabilidade da UFRJ.
Não é mais um manicômio porque na segunda metade do século passado reconheceu-se que naqueles lugares passaram a ser despejados e abandonados todos a quem não se queria convívio – dos doentes mentais – clientela nata, aos alcoolizados, depressivos, mulheres desobedientes, idosos, homossexuais e todo aquele a quem se queria afastar do patrimônio das famílias. Simplesmente não havia limites claros para se determinar quem era que deveria estar dentro, e quem deveria estar fora.
O horror que foram os hospícios está presente em muitas obras, de filmes a livros, de pinturas a músicas. (Sugiro buscarem documentários sobre o Manicômio de Barbacena).
Então, pelo menos à letra da lei, o louco foi normalizado. Ele é, agora, o doente mental ao qual se deve reconhecer a humanidade. Amém.
Mas os limites entre a loucura e a sanidade sempre foram palco de reflexões. Nos dias atuais, há tantas patologias para questões mentais que é quase um vexame social não possuir algum diagnostico. E na prática, é ainda pior.
Em outra ocasião, chegava perto de casa quando vi uma senhora esbravejando. Perto dela, o segurança de um hotel, visivelmente incomodado. Busquei acalmá-lo. O que houve, meu querido? Ela encrencou comigo, disse que eu fiz um negócio que não tem nada a ver. Quando eu alertei que ela estava em surto esquizofrênico, que se ele reparasse, perceberia que ela não seguia logica alguma nas suas falas. Não dizia coisa com coisa. Ele reparou. Se tranquilizou. A esquizofrênica seguiu seu caminho, livre para alucinar e esbravejar sem correr o risco de apanhar de um segurança muito grande.
Voltei para casa pensando na liberdade que os loucos possuem. Mesmo que haja filósofos que discutam que para que haja liberdade é preciso haver escolhas conscientes, não há dúvidas que, olhando de onde eu olhava, ao louco havia a possibilidade de pensar e agir como melhor lhe proviesse.
Entrei, brinquei com meu cachorro, fui ao escritório, liguei o computador e antes de começar a trabalhar, li notícias – minha mania. Pessoas defendiam ações que colocavam em xeque os direitos dos outros. Alguém defendia que outro país bombardeasse o nosso. Evidências científicas eram rechaçadas com o argumento da opinião. Não era possível dizer que se tratasse da desorganização mental de um surto, mas de ideias que pareciam igualmente imunes ao confronto com a realidade.
Uma angústia me tomou o peito. Um louco na rua não teria poder para legislar sobre minha vida, sobre meus bens, sobre minha liberdade. O máximo que ele me obrigava a fazer era assumir a responsabilidade de, em casos necessários, agir para decidir por ele em prol da convivência racional – frear um carro para que ele atravessasse sem ser atropelado, ou não o espancar porque no seu acesso de raiva falou olhando na minha direção. Não era tão fácil quando as questões de convivência se tornavam mais complexas.
No domingo seguinte estava passeando com meu cachorro pela Av. Paulista, fechada para que os pedestres dela a usem como parque. Ele, a quem da liberdade só lhe tolhe a enorme guia com que lhe conduzo (ou ele a mim), quis atravessar a ciclovia. Alguém, pago pelo poder público para regular o fluxo de pessoas estava lá para baixar ou erguer uma bandeira presa à um longo bastão semiflexível, interrompendo o fluxo das bicicletas velozes, quando o sinal fechasse.
Meu cachorro, coincidentemente, quis atravessar quando o sinal fechou. A mulher baixou a bandeira.
Dois rapazes, cada qual em sua bicicleta, preferiram não diminuir a velocidade. Retomar provavelmente demandaria uma energia que não estavam dispostos a gastar com o respeito àquela norma. Preferiram atropelar a bandeira, quase atropelando também meu cachorro, para legislar em causa própria.
– Você não vê que a avenida está fechada e não tem trânsito?
Mesmo que a mulher da bandeira disse que transito não havia, mas sinal sim, eu fui para casa com a sensação de que as pessoas, para terem a impressão de que são livres para fazerem o que acham melhor, são capazes de votar em quem pode não dizer coisa com coisa!
