Haveria, ao escritor, a incumbência de que sua escrita trouxesse à comunidade em que se insere alguma reflexão que, sem sua arte, talvez não existisse? Seria o escritor responsável por propor à sociedade a intersubjetividade sobre aquilo que sua obra pretende?
Mais que isso, teria o escritor a consciência, ou mesmo a pretensão, de querer que, com sua arte, alguma coisa fosse aprendida?
São questões de identidade para quem se pretende escritor. Mas são questões que, para mim, emergiram coerentes quando, ainda muito jovem, tive contato com as primeiras histórias. Principalmente as fábulas.
Uma fábula conta com uma estrutura fascinante. Primeiramente, ao antropomorfizar animais, permite que características humanas arquetípicas sejam observadas com atenção e que suas consequências possam ser refletidas. Tudo isso com o alento da fofura que é antropomorfizar animais. Quem das fábulas fez uso provavelmente conhecia o poder que elas têm. Walt Disney que o diga.
Mais que isso, é quase impossível não pensar que um escritor de fábulas tivesse a pretensão de propor reflexões capazes de modificar, ainda que um pouco, a sociedade, considerando que cada uma delas se estrutura sobre um conflito moral.
O exemplo da fábula O Lobo e o Cordeiro, escrita por Esopo aproximadamente seis séculos antes de Cristo, é perfeito para pensar essa tese.
Primeiramente, porque há uma clara diferença entre tamanho, força, dieta e habilidade entre um lobo adulto e faminto e um filhote de ovelha. São arquétipos facilmente reconhecíveis em diferentes momentos da vida cotidiana.
Segundo, porque essa diferença é ilusoriamente equalizada ao colocarem-se ambos num mesmo cenário de aparente igualdade: ambos bebem água. E ambos bebem água no mesmo riacho.
Lugar perfeito para estabelecer uma disputa. Se ambos bebem água, então é direito de ambos frequentarem o riacho. Mas, para o lobo, esse direito estaria sendo ameaçado ou negado porque, em vez de uma água límpida, encontraria uma água suja, imprópria, causada pelo cordeirinho que babaria ou remexeria o fundo do rio.
Esse argumento daria ao lobo uma justificativa moral para retaliar a afronta.
Só que é um argumento que não resiste à realidade de o rio correr do lobo para o cordeiro.
Então novos argumentos surgem. E são rebatidos.
Até que uma nova justificativa é apresentada, agora com violência suficiente para que já não possa ser contestada. Não há voz para quem foi devorado.
A fábula ensina que aquele que tem intenções escusas fará o que pretende distorcendo os campos discursivos sobre a verdade. A verdade deixa de importar. Importa aquilo que já se pretende fazer.
É, portanto, uma fábula que ensinaria, com maestria e charme, sobre um dos maiores problemas da atualidade: a pós-verdade.
Ensinaria. No futuro do pretérito.
Porque, no palco das construções subjetivas contemporâneas, as fábulas parecem ter perdido parte do espaço que antes ocupavam.
Talvez pelos avanços filosóficos das últimas décadas; talvez pelas louváveis conquistas sociológicas de grupos que durante muito tempo permaneceram oprimidos. O fato é que passou-se a olhar com maior desconfiança para narrativas que propõem reflexões morais — justamente porque elas também podem reforçar determinadas estruturas sociais.
Muitas fábulas, e muitas estruturas narrativas delas derivadas, passaram a ser questionadas por carregarem elementos que naturalizariam relações consideradas injustas.
Monteiro Lobato, acusado de racismo, é um exemplo notório. Outros autores que retrataram a visão de sua época — mesmo quando o fizeram como denúncia — também passaram a ser objeto de críticas, revisões editoriais ou intensos movimentos de rejeição pública. Casos como os de Mark Twain, Roald Dahl, Agatha Christie, Enid Blyton, Dr. Seuss, Laura Ingalls Wilder, R. L. Stine e J. K. Rowling ilustram esse debate.
No Brasil, Ana Maria Machado tratou do tema em entrevista recente ao Roda Viva.
O fato é que muitas dessas obras perderam espaço no imaginário coletivo ou passaram a circular acompanhadas de novas leituras.
Chapeuzinho Vermelho, com sua dependência de um caçador para salvá-la do lobo, passou a ser observada sob novos olhares. O mesmo ocorreu com Rapunzel e tantas outras personagens popularizadas pela Disney. Muitas releituras buscaram construir outras lógicas morais.
A antiga canção Atirei um pau no gato tornou-se alvo de críticas a ponto de ganhar uma versão alternativa que, embora difundida em ambientes escolares, jamais alcançou a popularidade da original. Hoje já não é comum ver crianças jogando-se ao chão e gritando “miaaaauuu”.
Chico Buarque deixou de cantar Com Açúcar, com Afeto em seus shows.
Marchinhas como O Teu Cabelo Não Nega, Maria Sapatão, Cabeleira do Zezé, Índio Quer Apito e Mulata Bossa Nova também passaram a ser alvo de críticas ou perderam espaço em muitos ambientes.
A própria identidade do escritor passou a conviver com novas questões. Seria o escritor pleno aquele a quem não pende sina alguma, senão o exercício da arte?
Seria o melhor escritor aquele que melhor entretém?
Talvez por isso seja cada vez mais comum encontrar narrativas preocupadas em afirmar posições identitárias ou processos de autoempoderamento. Nem sempre há espaço para que essas posições também sejam submetidas ao mesmo tipo de conflito moral que caracterizava as antigas fábulas.
Talvez muita gente hoje sequer conheça a história do Lobo e do Cordeiro.
É uma lástima. E uma questão preocupante.
Porque, justamente nestes tempos de pós-verdade, continuam surgindo situações em que grupos procuram justificar ações previamente desejadas por meio de argumentos sucessivos, ainda que frágeis ou contraditórios. A recente discussão em torno das tarifas impostas pelos Estados Unidos ao Brasil tornou-se um exemplo evidente desse tipo de construção discursiva.
Naturalmente, haverá aqueles que aderirão a essas justificativas e outros que as contestarão. Isso faz parte da vida pública.
O que causa estranheza é quando espaços cuja vocação deveria ser precisamente examinar criticamente os argumentos passam a tratá-los apenas como posições equivalentes em disputa, como se a velha fábula de Esopo ainda não tivesse ensinado a perguntar, antes de tudo, para que lado corre a água do riacho.
