Cinco e cinquenta e um. O alarme toca três vezes antes que eu aperte o botão soneca para voltar a despertar nove minutos depois. É o tempo de tomar banho, escovar os dentes, vestir e chegar na academia do prédio (sempre atraso dois minutos). Geralmente sou o segundo ou terceiro naquele horário. Sete exercícios, cada qual com três séries de oito repetições. Quarenta e cinco minutos depois, aperto o botão 16 no elevador, sigo até meu apartamento, cento e setenta e oito. São doze passos no corredor de doze estúdios. Um novo banho. Primeira refeição do dia.
Aperto o zero. Me questiono a razão do porquê os elevadores de prédios novos não terem mais a letra T de térreo para indicar o andar por onde se costuma entrar e sair. Confiro no aplicativo se já há um carro para me levar na rua treze, número duzentos e oitenta e cinco. Há. É um sedã cinza, placa ê, xiz, cê, dezoito noventa e sete.
“Dezoito e noventa e sete”
“Dezoito e noventa e sete”
Eu gravo mentalmente os números finais. Fiquei surpreso de ver, outro dia, com amigos que conheço há uns três anos, que eles gravam as três letras.
O carro chega. Dá tempo de ler alguma notícia. Mas isso se eu não conversar com o motorista. Quando faço isso, geralmente pergunto há quanto tempo trabalha, desde que hora está na labuta. Gosto de imaginar que ordem entre seus passageiros eu posso ser.
O carro para na frente do edifício. Vou até a portaria. Seguro o rosto firme para que se faça a leitura que liberará a catraca. Não funciona. Tento novamente, não funciona. Digito meu cêpêéfe, depois minha senha, que é meu número de funcionário da firma: um, três, cinco, sete. Entro no elevador com outros atrasados e aperto o nove. Me questiono se existe risco de alguém saber meu cêpêéfe e meu número de funcionário e entrar no meu lugar na firma. Desisto de responder quando me dou conta de que não deve interessar a ninguém trabalhar no meu lugar.
Ligo meu computador. Começo a trabalhar nas planilhas de controle que desenvolvemos para os clientes da consultoria. Eu sou o responsável pela terceira etapa, de conferência e adequação das fórmulas mais complexas. Sigo até o almoço conferindo se os valores digitados na ordem dos milhões são processados conjuntamente com as informações na ordem dos milhares de produtos, e geram valores compatíveis com o que se espera para alimentar as fórmulas de correlações. Os gráficos transformam os valores em imagens mais intuitivas, mas isso é coisa para as pessoas responsáveis pelas etapas quatro e cinco.
O computador avisa sobre o horário estabelecido para intervalo de almoço. Entro na fila do elevador. Há vinte pessoas e entram oito de cada vez. Vou na terceira leva, com outros seis que chegaram depois de mim. Eles formam grupos que vão a restaurantes de pratos feitos. Eu prefiro não ir. Primeiro, porque nestas ocasiões os colegas que puxam assunto tendem a conversar sobre as metas da empresa. Segundo, porque estou em dieta. Prefiro comer só em um restaurante por quilo.
Entro na fila da bandeja e ouço a dupla na minha frente falar sobre a quantidade de doses que tomaram na festa do final de semana anterior. Eles param quando a fila demora para andar. Há uma mulher escolhendo quais folhas de alface mais lhe apetecem. Ela segura com o pegador, olha de um lado, olha de outro, devolve. Na terceira vez coloca no prato. Tudo colocado com muita calma, como se cada unidade do alimento fosse decisiva para sua vida e sua morte. Me questiono se estou sendo preconceituoso ao achar que somente mulheres que usam calça quarenta e oito ou superior, como aquela, são as que se preocupam tanto com a escolha dos alimentos a ponto de ignorar o sacrifício de preciosos minutos do intervalo do almoço que provoca a cada um que tem a infelicidade de aguardar seu ritual de seleção alimentar.
Pego os meus alimentos sem o mesmo rigor. São folhas à vontade, todas as quatro ou cinco. Uma concha de legumes. Uma colher grande de arroz. Meia concha de feijão, tirando o caldo. Dois pedaços de proteína. Eu escolho de acordo com a meta do dia. Peso. O valor é anotado na plaqueta de acrílico de número trezentos e dezoito, que me deram na entrada. Não quero nada para beber. Levo minha garrafinha. Cabe setecentos mililitros e eu tomo quatro por dia.
Antes de comer, anoto as quantidades no aplicativo. Aproveito para anotar os três ovos do café da manhã, que na pressa esqueci. Anoto o café. É fundamental anotar, para poder controlar as macros. Como.
Eu me levanto para pagar a conta. Entro em uma fila atrás de seis pessoas. Dez minutos antes, eram vinte. O atendente do caixa chama o próximo e eu já lhe entrego a plaqueta. Ele pergunta se quero mais alguma coisa e penso em lhe fazer uma piada:
– Uma nota de duzentos…
Ele sorri amarelo sem olhar e pergunta se no crédito ou no débito. Deve ter sido a quinta vez que lhe fazem essa piada naquele dia. Quando cometo esse trocadilho em alguns lugares, a resposta tende a ser outra:
– Quem me dera, também queria. Crédito ou débito?
Crédito. Sempre no crédito. Assim acumulo pontos no programa. Posso trocar por passagem aérea para minhas férias de setembro.
Já estou na portaria. Cêpêéfe. Senha, que é o meu número de funcionário. Mais alguns minutos e estou no elevador com outras pessoas.
Começo a desligar meu computador. Sempre gasto um tempo fazendo backup, mas não registro como hora extra. Só fico com vergonha de sair na hora exata. Passa a impressão de que não sou humano.
Já estou esperando o uber que me leva para casa. Ká, éle, bê. O mesmo nome da banda dos anos dois mil. Quem tem vinte anos não sabe quem foram. Penso em guardar, dessa vez, só as letras, e procurar uma placa em um coupê branco que as tenha. Mas não resisto, e fico repetindo mentalmente:
“Ká, éle, bê, dezesseis, dezoito”
“Ká, éle, bê, dezesseis, dezoito”
Entro no carro. A corrida vai demorar um pouco mais do que pela manhã. A volta é sempre mais demorada.
Chego em casa. O monitor lê meu rosto e passo pela primeira porta, que me deixa na gaiola. Coloco a digital no segundo monitor para poder sair da gaiola. Estou no saguão. Se fosse mais tarde, teria que passar pelo terceiro monitor, para abrir a porta que se fecha nesse horário.
Percebo que minhas marmitas congeladas acabaram. Apelo para um aplicativo de delivery. Vou na opção de comida saudável. Escolho uma proteína premium com três acompanhamentos. Não resisto e peço dois carboidratos.
Enquanto espero, antecipo o registro no aplicativo. Os carboidratos ultrapassaram a macro do dia. Desse jeito nunca vou baixar meu nível de gordura, que está em vinte.
Faz três meses que me esforço para emagrecer. Às vezes me deixei levar pela busca fácil de alegria em uma barra de chocolate. Ou em latas de cerveja. Só aumentaram os quilos, de pura gordura, e a tristeza não foi embora. Mas eu li na internet e ouvi o influenciador. Se eu tiver doze por cento de gordura, vou ser um homem mais confiante. Só preciso treinar todo dia e comer direito.
Talvez se eu entrasse no crossfit, atingiria a meta. Quero chegar a dez por cento de gordura. O crossfit tem aquele esquema de metas de exercícios cronometrados que queimam muita caloria.
Lembrei que também preciso tomar os suplementos. Deve ser por isso que não estou emagrecendo. Já tenho trinta e nove, não posso mais perder tempo. Entro no site. Faço o cadastro. Nome, cêpêéfe, endereço. Produto. Número do cartão. Cinco, dois, oito, zero, zero, zero, meia, quatro, um, um, três, sete, cinco, oito, zero, dois. Enter.
A campainha toca. Entro no elevador. Aperto zero. O entregador pergunta:
– É do doze zero oito?
– Sim, boa noite.
– Qual o código?
– Cinco, cinco, zero, um.
É o final do meu número de telefone.
Subo. Como. Olho no relógio. Um dia que passou e tudo que sinto é como se nada acontecesse. Não posso me deixar abater. Não posso deprimir. Não é decente para um homem bem-sucedido.
Pego meu celular, abro a agenda de contatos. A terceira da letra bê é Bruna. Já saí com ela. Ligo. O telefone toca cinco vezes, sem que ela atenda. Resolvo desligar. Alguém me disse que quando a pessoa quer atender, atende antes da terceira.
Vou passando os nomes e chego na letra ê. Evelyn é a décima da lista. Faz seis meses que não a vejo. Resolvo mandar uma mensagem por whatsapp.
“oi, sumida”
Cinco minutos depois ela vê. Não responde. Dez minutos depois não responde e eu desisto. Talvez seja melhor nem procurar as mulheres com quem não se fala há mais de três meses…
Chego na letra pê, e logo no início encontro Patrícia. Há pouca gente que agendei com a letra pê. Mando mensagem. E ligo.
Na quarta chamada Patrícia atende. Digo feliz:
– Oi, tudo bem? Estava pensando em você.
– Mentira. Você deve ter passado a agenda toda antes de chegar em mim?
– Por que fala isso?
– Porque estou na letra pê.
– Mas o que tem isso? O que te faz achar que eu te procuraria na agenda?
– Porque você trata a gente como se fosse número!
