Quando entrei no Uber que me levaria à festa já era meia-noite. Os amigos já estavam lá e mandavam mensagens pedindo minha presença. Enquanto esperava, me lembrava que isso acontecia comigo vinte ou trinta anos atrás. Naquele momento eu era um cara de muitas idades.
Eu comecei a sair para festas em torno dos vinte anos. Era uma cidade de cerca de sessenta mil habitantes, cravada no meio de uma então existente floresta. A Amazônia mato-grossense. Ligada ao resto do Brasil por uma sofrida estrada esburacada de 500 quilômetros até a capital, Cuiabá. Naquele isolamento, Sinop e o que conseguíamos fazer com ela era tudo o que tínhamos do mundo.
E como bem fazíamos! Nos juntávamos para fazer festas nós mesmos quando não havia nenhuma opção. Qualquer agrupamento de cinquenta pessoas era um grande evento. As festas, como o motocross ou a exposição agropecuária, que reuniam mais de cinco mil pessoas, eram acontecimentos épicos.
Comparada aos grandes centros, aquela pequena comunidade era insignificante. Mas, paradoxalmente, a importância do papel de cada um nela era o inverso. Todo mundo era relevante. Cada pessoa, cada história, era uma oportunidade única de ampliar o nosso mundo.
E por isso — e porque nas cidades pequenas as máscaras sociais se sobrepõem — conversávamos. Puxávamos conversa com qualquer um. Um desconhecido não o seria por muito tempo. Logo alguém quebrava o gelo e iniciava um bate-papo. E quando o novato menos percebesse, lá estavam dezenas de novos amigos o tratando como se o conhecessem há décadas.
Ri disso quando estava no carro a caminho da festa. Percebi que, após três anos morando em São Paulo, eu já estava me acostumando com as dinâmicas paulistanas, onde as pessoas entendem que a privacidade é um valor inexpugnável, e a conversa não pedida, uma afronta deselegante. Ainda assim, puxei assunto com o motorista. Ele respondeu contente. Era de Guarulhos.
Ao chegar à festa, uma fila quilométrica. Minto, eram duas. Uma para quem pagaria por consumação, outra para quem não. Dezenas de centenas de pessoas em cada uma delas. Com certeza eram mais de um quilômetro…
Mas, se você bem lembrar, eu disse que meus amigos me esperavam. Amigos muito queridos, muito abençoados, e que eram bem relacionados o suficiente para me dizer que eu estava “com o nome na lista”. Eu achava uma excentricidade bobinha estar “com o nome na lista”, até entender que isso poderia significar encontrar uma fila que durasse menos de uma hora.
Segui o conselho deles e procurei me informar.
— Vá ao portão três ou quatro — alguém do staff me disse.
Fui.
No portão três, uma dezena de pessoas enfileiradas até a porta de entrada. Uma fila tão pequena que não parecia verdadeira.
Entrei.
E o medo de pagar um mico? De chegar até a portaria e descobrir que estava no lugar errado?
Sim, o medo de pagar mico é algo que cresce substancialmente quando você mora em uma metrópole. Em uma pequena cidade como a que cresci, um mico vira motivo para risadas. As risadas, compartilhadas, criam afinidade. Se você paga um mico com alguém, lá na frente essa pessoa o puxa para bater papo já começando pelo mico que você pagou.
Mas em São Paulo um mico é uma desfeita. Dependendo da sensibilidade de quem o recebe, é uma ofensa.
Então perguntei, muito timidamente, para o rapaz bem bonito que estava na minha frente:
— Aqui é a fila das pessoas que têm o nome na lista?
— Espero que sim! — me respondeu o jovem, me sossegando ao mostrar que meu temor poderia ser compartilhado.
Foi um temor rapidamente superado. O namorado do rapaz chegou e esclareceu para seu grupo:
— É aqui, sim!
Eu entraria na festa em menos de vinte minutos.
Feliz, relaxei. Empolgado por me sentir como fazia aos vinte anos. Repeti para mim mesmo:
“Hoje quem nunca falou mal de mim vai falar.”
Isso significava que eu não iria me preocupar muito com o rigor do julgamento alheio.
E o resultado disso foi que, quando o namorado do moço bonito falou para seu grupo:
— Então vocês estavam falando mal de mim, né?
Eu nem quis saber o que era a malfalação e já entrei na conversa:
— Sim, estavam falando mal de você, sim!
Era óbvio que não estavam. A graça era eu dizer que estavam, porque a minha cara de exagero denunciava a enorme ironia da brincadeira. Era uma espécie de truco, uma empulha. Quem sabe, brincando, eu não fazia novos amigos como quando era muito jovem, na pequenina cidade perdida no meio do mato?
A cara de incrédulos do namorado, do jovem e de seus amigos me fez aumentar um pouquinho mais o tom:
— Aliás, como é seu nome?
Ele disse, e eu sentenciei:
— Sim! Era esse mesmo o nome que eles falavam mal.
Riram todos. Eu sorri. Me afastei e os deixei brincando com a piada que tentei fazer.
Mas não me puxaram conversa. Em São Paulo a discrição é uma virtude. Talvez eu tivesse pagado um mico. Baixei a cabeça, sorrindo sozinho, e procurei não causar mais nenhum dissabor ao grupo.
Mas foi tudo tranquilo. Eles logo estavam conversando entre si, e eu, me surpreendendo.
Sim, me surpreendendo.
Isso porque, em uma cidade com mais de doze milhões de habitantes, onde ninguém se conhece, onde a discrição e o isolamento são a regra, várias pessoas vieram me abordar na fila.
Primeiro, um colega da mesma universidade em que eu trabalhava, no Mato Grosso. Agora amigo, veio querido e me apresentou ao namorado. Logo depois, um jovem com quem bati papo um dia e que se tornou um amigo frequente nos lugares onde costumo ir. Apresentou-me ao marido.
Adiante, mais três amigos na fila. Abraços carinhosos. Cumprimentos.
Na hora de entrar, o rapaz da recepção me saudou radiante. Começou a me contar que estava terminando a faculdade, que estava estagiando e que, por isso, fazia bicos e não trabalhava mais lá.
Lá onde?
Na loja onde, um ano antes, eu havia comprado a jaqueta que usava naquela noite e onde havia feito tantas piadas sobre o interior que o garboso moço ainda lembrava de mim.
Entrei na festa e fiquei sorrindo comigo mesmo. Milhares de pessoas naquele lugar. Algo impensável na minha época de jovenzinho. Mas, ao mesmo tempo em que eu estava ali, naquela gigantesca metrópole insensível, também estava numa espécie de comunidade do interior, onde as pessoas sobrepõem suas máscaras sociais e aceitam do outro, com bom humor, suas peculiaridades.
É. Eu não havia pagado nenhum mico.
Quer dizer, foi quando reparei novamente naquele grupo que estava na minha frente na fila.
O namorado, o rapaz a quem perguntei o nome, estava sendo celebrado por uma série de pessoas.
Então o reconheci.
E entendi por que ele olhou incrédulo quando perguntei seu nome.
Ele havia respondido Tiago.
Era o Tiago Abravanel!!!
