Ele segura a raiz com firmeza, e puxa. Aquela é a parte crucial da jornada. Espera que a raiz resista, que não seja ela que venha a si, mas o corpo que se projete. Ele precisa galgar aquele paredão de terra e pedras para que possa finalmente chegar na parte mais tranquila da escalada. E ele precisa alcançar o topo em pelo menos mais cinco minutos. Feito isso não haverá ninguém que conseguirá superá-lo. Na verdade, ele provavelmente estará um ou dois minutos na frente de algum possível concorrente.
Ele puxa, a raiz resiste, seu corpo se eleva e com a outra mão ele alcança a pedra. Dessa vez, braço esquerdo. Puxa, e sobe. Consegue galgar. Aquele atalho lhe deu a vantagem. Corre. Chega na bandeira, pega e aperta o cronometro. Ouve o sinal vindo de baixo. Na base do acampamento já sabem que há um vencedor, um macho alfa. É ele!
Cinquenta anos antes outro homem fez o mesmo trajeto.
Também teve que se pendurar em raízes, em pedras. Também suou e rasgou a camisa. Mas não havia cronometro a sua espera.
O que havia era a necessidade. Aquele morro, desocupado até então, talvez tenha recebido algum visitante – um nômade, um nativo, um aventureiro enlouquecido. Não importava. O que importava era abrir o caminho para que os outros que vinham atrás tivessem mais condições para carregar os fios, o aço, as ferramentas e o que mais fosse necessário para que a cidade pudesse ter, finalmente, sinal de rádio e, talvez, televisão e telefone.
Ele evitou o atalho. Conseguiria chegar mais facilmente se fosse por ali. Aliás, dentre os companheiros que usaram a folga do final de semana para montar a torre de transmissão, dos três ou quatro que se propuseram a abrir caminho, foi o que insistiu em sê-lo porque sempre gostou de se erguer puxando pelos braços, seja em barras nos equipamentos de atletismo, ou nos galhos das arvores quando era criança. Os outros se dariam melhor com outras funções. O parrudo seria perfeito para carregar as ferramentas, pesadas.
Terminada a missão, semanas depois, a cidade receberia o sinal que a ligaria ao resto do mundo. Ansiavam por isso desde que surgiu a novidade.
O mesmo morro. A mesma escalada. Mas dois homens diferentes, porque o que os constituem não é a mesma coisa. Conquanto o primeiro o faz porque quer, ou talvez precise, sentir-se o melhor entre os demais, o segundo o faz porque é preciso. Porque a comunidade que faz parte precisa!
Talvez não precisasse ser assim, mas cada época define as bases para que se construam, os homens e suas prioridades.
Alguns teóricos defendem que na época da humanidade coletora não havia diferenças entre homens e mulheres. Ambos andavam e carregavam os filhos. Ambos buscavam atentos por alimentos. Ambos encontravam onde se abrigar, e avisavam aos demais. Foi com a agricultura, e a necessidade de resguardar um lugar físico, uma casa, uma roça, um lar, que foi necessário se diferenciarem os papeis. Talvez tenha sido por sorteio aleatório que coube aos homens cuidar do lado de fora, e às mulheres o lado de dentro…
Séculos mais tarde, já havia mais elementos para diferenciá-los. Em Athenas ao homem cabia raciocinar, se comunicar, desenvolver conceitos abstratos sobre a vida, as coisas, e sobre si. Em Esparta, cabia a disciplina, o preparo físico, o treinamento militar. Em Corinto, a habilidade de negociar e prosperar. Mas nas três cidades-estados o valor de um homem se media por cumprirem os papéis sociais em prol de suas sociedades.
Talvez isso explique o porquê, ao individuo moderno que escala montanhas, qualquer visão diferente de masculinidade lhe cause tanto incomodo.
Talvez seja por isso que se revolte quando lhe trazem provas de que comportamentos e hábitos são próprios de cada época, que lhe mostrem o homem mais poderoso do século XVI usava meias-calças, sapatos de salto alto, casacos e roupas bordadas e paramentadas com pedrarias, que usava peruca e maquilagem. São elementos que hoje se atribuem ao feminino. Talvez por isso tanta resistência à aceitação de uma existência digna e pacífica para pessoas transgênero.
Talvez essa diferença tão essencial entre ansiar ser reconhecido como o melhor da comunidade versus se reconhecer como parte da comunidade ao fazer o que ela demanda, seja a causa de tanta violência que alguns grupos focados em masculinidade demonstram.
Porque, afinal de contas, talvez a violência seja algo da natureza do ser humano. E não somente da masculinidade.
Eu cresci num ambiente inóspito. Na Amazônia mato-grossense, tudo precisava ser feito. Todos, homens e mulheres, precisavam fazer seu papel em prol de uma comunidade. Era necessário para que sobrevivêssemos.
Naquele meio, se aparecesse alguém mais preocupado em performar masculinidade do que exercer o papel de homem de verdade, a sociedade como um todo lhe seria cruel:
– Isso daí é um cabaço!
