A ligação por vídeo nos une, como unia a imaginação em torno das cartas de antigamente. Como já uniu o telefone, o telegrama. Como unem as mentes ao ouvirem a canção cumplice.
Mas ainda que mais rápido, mais material, a chamada ainda persiste ocupando o mesmo lugar: um espaço que não é vago, nem é presente…
– Como seria bom te abraçar!
Quando algo real nos toca, nós sentimos. Antes de nominar, há um saber que nos preenche, um saber sensorial.
Tão real que as palavras não o capturam. Tão real que se torna imenso. Intenso a tal ponto que, se não o nominarmos, no lugar da voz, o que sai são lágrimas.
Isso ocorre especialmente quando o que nos toca é um afeto que nos falta.
Mas não é um afeto que se encontra diante da solidão, do isolamento. Se fosse, talvez usássemos solitas, do latim. Uma palavra que se acredita que homens e mulheres usavam quando queriam expressar o que sentiam ao se depararem, séculos atrás, com a inevitável realidade de se verem sozinhos diante do mundo. Ontem, hoje ou amanhã, isso acontece em algum momento.
O afeto a que me refiro vagueia por perto, mas não é expresso pela solidão. É um pouco mais, um pouco diferente. É como se nos reconhecêssemos sós, mas também reconhecêssemos que algo deveria estar ali. Ao nosso lado!
É um afeto que existe em muitas culturas. Um afeto sentido por gentes de todo lugar. Humanos. Reais. Pessoas que sentiram e tentaram diminuí-lo ao encontrar formas de declará-lo.
Onde se enviavam para longe navios carregados de entes queridos, apareciam os sentimentos de orgulho e de conquista, dos mares e de novos lugares. Mas o mesmo sucesso pelo novo também levava para longe todos aqueles que eram amados e que ficavam na terra abandonada…
Um lugar cujo afeto saiu como saudade…
Um som…
Um som que exprime a falta de alguém ou de algum lugar. Em outras pátrias, esses sons soaram diferentes. Assim como añoranza, quando a nostalgia por pessoas ou lugares se tornava forte. A nostalgia existe em várias línguas.
Mas é quando a falta de alguém bate que o som ganha a forma da cultura…
Manquer quelqu’un…
Mi manchi…
I miss you…
Às vezes tão intensa, a ponto de a palavra exprimir um desejo…
Verlangen
Às vezes tão implacável que o corpo sente…
Dor
Não que todas essas sensações não estejam presentes na nossa saudade brasileira.
Pois sentimos! Tanto! E a palavra bem nos cabe para nominá-las.
Mas a nossa gente, tão marcada por tantas crenças, tantas culturas, tantos tons, possuem sentimentos demais para serem expressos por palavras que, talvez por valorizarem tanto os sons que produzem, talvez porque ele por si bastasse, escapam por um mesmo vocábulo.
— Te amo! Muita saudade!
É uma espécie de alegria, de contentamento, de gratidão! Um gostoso que se sente porque existe, no mundo, alguém tão especial que faz falta para a gente. Não uma falta que nos dilacera, mas uma falta que gostaríamos de preencher, de ter aqui ao nosso lado.
Uma falta que, por senti-la, mantém, simbólica e sensorialmente, a pessoa em nossa mente, em nossa emoção…
É uma saudade para se gostar!
