As camisetas amarelas predominavam por sobre as azuis e uma única, meio perdida, mas orgulhosa, verde. Quem as vestiam bebiam cerveja em torno de um objeto místico: a tela de uma televisão. Minutos a seguir começaria o jogo, e as conversas eram em torno da copa.
Uma discussão pacífica, mas acirrada, me chamou a atenção. De um lado, um fã ardoroso defendia seu ídolo (sabem quem, sem precisar lhe dizer o nome – ao menos nesse 2026 que escrevo a crônica). Do outro, quem questionava o fanatismo.
– Ele é bom, mas não é tudo isso. Já vi gente tão boa quanto que não teve tanta sorte.
– Que sorte? Essa fama vem do talento. Está no destino dele.
Sorte? Ou Destino?
Para quem passa desapercebido, a escolha do termo entre os torcedores canarinhos talvez disputasse a existência de mérito, ou não, no lugar que o tão celebrado jogador ocupa no reino do futebol nacional. A quem alega uma dose generosa de sorte, o mérito seria menor ou nem existiria, uma vez que qualquer um poderia ser por ela abençoado.
Já para quem defendia que ao jogador estava fadado um destino, ser um astro era seu mérito nato – é como se Deus o houvesse escolhido antes mesmo de nascer. Ninguém mereceria mais que ele.
Aquela questão me abarrotou mais do que o jogo morno da estreia da seleção. Quantas vezes usamos do conceito de sorte, ou de destino, para resolver nossas questões comezinhas, nosso dia a dia angustiante, nossas dores mais insuportáveis?
A cena das muitas pessoas que testemunhei pedindo sorte ao prestarem vestibular, participarem de entrevistas de emprego, jogarem uma partida de um esporte qualquer? Era a mesma sorte que alguns dos torcedores pediam para a seleção. Talvez por amor à camisa ou ao esporte, ou apenas porque a festa que se segue é bem mais animada com uma vitória, o que se pedia era que, por algum estratagema místico, o resultado fosse o mais benéfico ou desejado.
Saida mística. Talvez por isso tantas orações, rezas e mandingas costumam vir juntas aos pedidos de boa sorte.
Sempre me questionei por que as divindades iriam preferir a ele, que a outros que com ele disputassem o resultado. Teria Deus os seus preferidos? Ou talvez a carga devocional, o domínio da técnica da prece perfeita, a força de vontade na invocação ou mesmo o histórico pregresso do invocador teria alguma participação?
Se sim, então há algum mérito em ter sorte. Fizeram por merecer a predileção divina.
E quanto ao destino e sua relação com algum mérito, de Édipo Rei à O Senhor dos Anéis, foram muitos os clássicos universais que a discutiram. Quando Édipo mata seu pai, fura os olhos e sai ao deserto arrependido. Não o queria. Mas o fez, porque não o destino não deu alternativa. Já para Frodo e seus companheiros, talvez o mérito talvez fosse apenas suportá-lo.
Mas mesmo que se aceitem estes argumentos, e naquela reunião futebolística a lógica do merecimento estivesse invertida, ainda assim talvez não houvesse mérito algum ao ser humano – somente ao ser divino.
Mas talvez uma saída honrosa possa aparecer nessa discussão sobre os conceitos. Se aceitarmos a Deus mais como uma figura acolhedora, um grande Pai que não tem preferidos e que acolhe amorosamente a todos que o procuram, então talvez seja melhor eliminá-lo da elaboração conceitual.
E livre da sombra da divindade, o que sobra para a sorte é o acaso. Aliás, o acaso e a competência. De nada adianta as oportunidades tocarem a vida de uma pessoa se ela não estiver preparada para reconhecê-las, ou aproveitá-las.
A sorte, nesse caso, é o merecimento de quem viu a oportunidade e aproveitou.
Já o destino, ele tem suas funções. Quando as eventualidades são por demais pesadas, trágicas, fatais, talvez ele se torne um ótimo conceito para se enfrentar a dor.
– Não havia o que se fazer.
– É o destino.
E sempre se pode contar, nestes casos, com o abraço acolhedor e reconfortante do Pai:
– Deus sabe o que faz.
– Deus escreve certo por linhas tortas!
Talvez seja ter a possibilidade de ação sobre sua própria trajetória que realmente contasse na discussão dos empolgados torcedores. O ícone ao qual debatem talvez só servisse de amalgama para discutir aquilo que realmente queriam dizer. De um lado, aqueles que em si creem argumentando:
– Eu só não estou no lugar dele porque não tive a mesma oportunidade.
Do outro, aqueles que contra-argumentam:
– Eu só não aproveitei as oportunidades que tive por que estavam além das minhas possibilidades.
