“Se eu tiver duas camisas
E alguém chegar com frio, uma eu darei
Mas no amor sou egoísta
Eu não quero sentir um sócio, jamais, querida, consentirei”

Talvez a elite das metrópoles não conheça esses versos. Com certeza quase ninguém da geração Z sabe do que se trata. Mas é bem provável que qualquer pessoa que viveu os anos oitenta, no interior do país ou nas periferias das grandes cidades, leu no ritmo da canção.

Para mim, o fato é que esses versos sempre me chamaram a atenção. Por que Milionário e José Rico iriam usá-las para dizer que eram pessoas a quem a fidelidade da mulher amada era um valor maior que qualquer outro, um valor inalienável?

É claro que se tratava de um valor da época. Nesses tempos de modernidade e amores líquidos, as canções populares tendem a pregar o desapego, o deboche à fidelidade. Só que o que me surpreendia, e continua surpreendendo, é a generosidade da doação de uma das duas únicas camisas ser assumida como um valor tão inestimável, que só perde para a fidelidade da mulher amada. Esta última os autores não abrem mão.

E é preciso acrescentar: na época em que os versos foram cantados, o homem era um trabalhador cujas camisas eram parcas e importantes. A camisa, com bolso para cigarro e cacarecos, era inclusive símbolo de masculinidade…

Talvez tenham escolhido por tratar-se de tema bíblico. Há pelo menos umas quatro passagens que fazem referência: Evangelho de Lucas 3:11; Evangelho de Mateus 5:40; Evangelho de Mateus 25:35-36; Primeira Epístola de João 3:17 — todas convergem para a mesma ideia: quem tem mais do que o necessário deve partilhar com quem nada tem, porque a fé verdadeira se manifesta em generosidade concreta.

Só que é uma liberdade poética gigantesca afirmar que quem tem duas camisas tem de sobra.

Qualquer pessoa que tenha convivido na estrutura social brasileira, onde muitos se veem ricos, outros emergem e tantos não o são, reconhece que, para alguns, há o que de fato sobra e, para outros, sobra apenas a esperança.

A ideia de se ter “mais do que o necessário” contrasta com a percepção comum de que sempre se tem menos do que se gostaria.

Entretanto, o sentido que os compositores usaram era o de que a generosidade seria doar com algum tipo de sacrifício.

É uma diferença que pode explicar a lacuna entre a generosidade e a caridade. Essa última é possível somente para quem possui muito e a quem interessa ajudar aos outros. E nela pode estar contido um componente de troca — seja na manutenção de uma ordem social, seja na percepção de si como alguém bom, seja em alguma forma de recompensa simbólica. Ser caridoso é dar um pouco do que lhe abunda, em troca de algo que também lhe retorna.

Ainda que a generosidade possa implicar algo que não seja material — como atenção, ouvidos, orientações, suporte, aconselhamento ou qualquer forma de afeto ou ajuda — não se diferencia muito do exemplo de se doar metade da própria carência. O que se destaca é a essência de que, na generosidade, dá-se algo de si. Na caridade, algo do que se tem.

A psicanálise não trata da generosidade como fenômeno específico, mas a atravessa. Para o indivíduo que nasce narcísico, ela pode ser entendida como um deslocamento de si para o outro, ainda que carregue o desejo de ser reconhecido como generoso. Pode também surgir como tentativa de reparação psíquica, não raro acompanhada de culpa. E há ainda a dimensão em que, ao ser generoso, não se dá algo, mas um lugar simbólico: oferece-se reconhecimento, permite-se ao outro existir como sujeito — ainda que, por vezes, isso encubra uma tentativa de influenciar seu desejo.

São concepções que não entram no viés moral. Apenas definem como um fenômeno ambíguo, onde o gesto de generosidade carrega a mistura de cuidado pelo outro e investimento em si mesmo.

Talvez seja essa a explicação para que a generosidade deixe, em quem a pratica, uma sensação boa.

Para mim, há uma explicação mais simples. Quando se é generoso encontra-se em si mesmo algo de que se possa abrir mão sem que se deixe de existir. É encontrar, em si, um lugar onde não há falta.

Num mundo de tanta penúria, ter a oportunidade de se sentir tão completo que ao outro é possível ajudar, essa sensação é, sem dúvida, um privilégio!

Observação pertinente: nos anos oitenta, a ideia de partilhar o afeto da mulher amada com outro era algo tão terrível que nem o privilégio de se sentir generoso era conveniente. E hoje?