Você sente. É uma miscelânia, não são só sensações boas ou ruins. É a ambivalência. O amor e o ódio te atraem e te repelem daquela pessoa que está diante de ti naquele momento. E ela falou algo que te desnorteou.

Suas emoções entraram em ebulição. Você precisa deixá-las sair e quer que ela seja capaz de senti-las (para que lhe seja empática), como também quer que ela lhe compreenda. Seu raciocínio é baseado em inúmeras camadas de reflexão e de conhecimento. Aquilo que você ouviu, de alguém que ama profundamente, mas que também te desperta muita raiva de vez em quando, puxa demais para esse último lado. Você precisa responder e formula a resposta baseado em toda a estrutura cognitiva que acumulou até aquele momento.

Abre a boca, e fala!

E o desastre completo acontece. Os laços que te unem àquela pessoa – e creia, a ambivalência também age do lado dela – estão praticamente rompidos, e será preciso muito esforço e boa vontade para que possa haver algum conserto. Talvez não sem ficarem marcas.

Que droga! E você só falou a verdade!

Não importa se ao ler essa mensagem você estava pensando em seu amor, seus pais, seu empregador, sua amizade predileta. A estrutura é a mesma. Às vezes, mesmo que amemos e mesmo que queiramos nos fazer bem entendidos, podemos ser profundamente inconvenientes.

Ou grosseiros, estúpidos, violentos. Nestes tempos em que a sociologia deu instrumentos para que se busque o controle dos detalhes das relações, podemos ser até criminosos.

Reconheça-se que, em várias outras ocasiões, somos nós que nos sentimos agredidos ou afrontados pela fala do outro.

É a vida! São as relações!

Mais que isso, são os limites da comunicação. Você já se questionou sobre isso?

Eu já! Desde o início da adolescência, quando li, em uma revista de divulgação científica, uma frase que me acompanha até hoje: “A diferença entre a palavra quase certa e a palavra certa é a diferença entre o vaga-lume e o relâmpago.”

A frase original é atribuída a um humorista americano chamado Josh Billings, mas sua versão que se tornou popular é de Mark Twain, escritor americano, em um artigo de 1895. Ela foi usada em uma pendenga entre autores. Twain defendia que, na literatura, era preciso escolher a palavra certa para que a mensagem fosse transmitida. Qualquer outra opção apresentaria um texto incompleto, quebrado.

Independente de ele estar certo ou não, a ideia de que cada vocábulo carregue em si um significado mais preciso que outro me levou a algumas manias. Uma delas era fazer piadas com sinônimos. Piadas que, na maioria das vezes, faziam graça e significado apenas para mim. Ainda as faço e rio delas.

Conforme fui crescendo, a frase me acompanhou em outras incursões. Na vida como empresário, ela me levou a imaginar uma alegoria em que eu aplicava a teoria dos conjuntos. Tudo o que eu conhecia pertencia ao conjunto dos meus saberes, e tudo o que a outra pessoa conhecia pertencia ao conjunto dos saberes dela. Nossa convivência e diálogo somente poderiam ocorrer no campo da intersecção. Alegoria primitiva, mas que me permitiu lidar com o outro no início da minha vida adulta. Tentar entendê-lo para com ele negociar.

Confesso que eu tinha a esperança de que, com boa vontade e algum afeto, as pessoas podiam ampliar seus conhecimentos, permitindo-se entrar no campo dos saberes alheios.

Essa alegoria foi retomada mais a sério, com outra roupagem, outra linguagem, na minha formação stricto sensu. Principalmente no doutorado. Fui estudar controle e contabilidade, uma área cuja aplicabilidade prática é explicar todo um conjunto de relações pelo dinheiro que elas movimentam. Tudo organizado em uma tecnologia tão poderosa, tão interligada ao capitalismo, que é possível se questionar se ele deriva dela ou vice-versa.

Uma tecnologia que usa um processo de codificações em que impera a crença de que há qualidade quando é feita com precisão. Um processo tradicional de comunicação que orgulharia Mark Twain.

Acontece que minhas inquietações teóricas e epistemológicas não me permitiam dedicar-me tão somente à aplicação magistral da técnica, que via em muitos dos meus colegas e amigos. Eu me intrigava com a estrutura em si.

A meu ver, o próprio processo de codificação apresentava fragilidades. A própria técnica oferece diferentes metodologias para avaliação patrimonial, o que, na prática, faz com que o valor derive de escolhas, de estratégia. Apesar de extremamente importante para mediar relações entre organizações, pessoas e Estado, a informação contábil fala de preços. O valor, mesmo, é subjetivo. É o que cada pessoa atribui a algo.

Eu só fui entender isso mais claramente quando o conceito de significante e significado, especialmente na psicanálise de Lacan, chegou até mim. O significante, seja um balanço, uma palavra, um gesto ou um símbolo, é o mesmo para todos. Mas o significado é idiossincrático. O significado é o conjunto entre os saberes etic (compartilhados com os outros) e emic (tão próprios de cada um que podem incluir aquilo para o qual ainda há elaboração em palavras, envolvendo sentimentos, impressões, subjetividades).

Foi quando eu compreendi, finalmente, o que me cabia quando a ambivalência me levava a querer falar a verdade para outra pessoa.

Não há verdade. Não uma única. Há a verdade gerada por determinada perspectiva. Há a verdade que percebemos e a verdade que queremos.

Ao outro também cabe sua verdade.

Para que haja uma possibilidade maior de comunicação, para que eu seja capaz de expressar meus sentimentos e ideias de tal forma que ao outro consiga aproximá-lo de mim, não cabe escolher intempestivamente qualquer palavra.

Cabe escolher as que melhor expressem o que penso, estando atento para ouvir, do outro, os significados que ele atribuirá a elas.

Com diálogo e boa vontade, uma aproximação pode ser possível.

Como fazer? Não há manuais. Cabe a cada um, para sempre e por todos os tempos, o desafio de tentar descobrir o mais satisfatório para cada situação.

Mas uma coisa é certa: a crença de que haja uma palavra certa, uma palavra que aja como mágica e que permita a uma pessoa dizer “a verdade”, essa crença provavelmente só a levará a ser inconveniente. Ou grosseira, estúpida, violenta. Nestes tempos em que a sociologia deu instrumentos para que se busque o controle dos detalhes das relações, pode até ser criminosa.