E se, de repente, o pior acontecer?

Algumas pessoas costumam explicar suas angústias e seus fracassos pelos traumas que sofreram em vida. Eu reconheço que fui uma delas em vários momentos da minha vida. Mas também sou a pessoa que reconhece que os traumas requereram que algumas capacidades e competências fossem desenvolvidas para que se pudesse sobreviver a eles. Habilidades estas que me proporcionaram considerável qualidade de vida, adversidades superadas.

Conseguir ler cenários e contextos foi uma delas.

Explico. Eu cresci em uma sociedade hierarquizada, numa serra de Santa Catarina e depois no fundo da floresta mato-grossense, onde as pessoas lidavam com precariedades grandes demais para sobrar tempo que pudesse ser investido na construção de regras sofisticadas de justiça social. Era um ambiente em que as adversidades materiais requeriam tanto esforço que não havia tempo ou espaço para que pudessem surgir reflexões coletivas de justiça aos mais fracos ou aos mais oprimidos.

Como garoto gay, era um deles.

Não que eu fosse agredido por ser gay. Nada disso. Primeiro, porque eu precisava esconder qualquer sinal que pudesse me denunciar como gay.

Também porque eu me apegava aos meus privilégios. O principal deles era ser um garoto branco. O segundo era que eu me tornei um nerd. Não do tipo que consome cultura pop. Aquele tipo que tirava as melhores notas, ganhava concursos de conhecimento geral e sempre precisava aprender tudo que pudesse ser aprendido.

Ser um nerd me protegia porque foi assim que aprendi a calcular riscos. E aproveitar oportunidades. Aprendi a correr atrás dos saberes que explicavam o que não conhecia, como forma de calcular meus passos. E aprendi mesmo tendo restrições de acesso ao conhecimento formalizado. Na minha infância e adolescência, o conhecimento e a cultura eram luxos para os filhos das pessoas ricas dos rincões da selva amazônica.

A selva caiu. Foi transformada em fazendas de soja. A civilidade alcançou os rincões e, verdade seja dita, a internet colaborou com isso.

Não foi uma mudança fácil. Tampouco rápida. Eu poderia contar vários casos em que, já adulto, fui preterido em disputas em que o mérito era meu, mas pesou contra mim a minha sexualidade escondida. Isso em ambientes teoricamente mais esclarecidos, como o meio acadêmico.

Tampouco posso afirmar que a selva de fato sumiu. O jogo de disputas simbólicas continuou, mas transformou-se. Surgiram novas regras sociais, que beneficiavam diferentes grupos. Ainda havia opressão.

E para enfrentá-la, a minha realidade talvez só tenha mudado de fato quando eu aceitei correr os riscos e assumir minha sexualidade. Dessa forma, passei a impedir chantagistas e manipuladores de usá-la contra mim.

Estou contando essa história pessoal só para dizer que eu sei, na pele, o que é viver em uma realidade opressora. E sei, por empatia, que minha realidade ainda era leve perto da de outras pessoas que não contavam com os mesmos privilégios que eu.

É com base nessa trajetória que escrevo minhas percepções de vida e convido as pessoas a refletirem.

A ideia é chamar todos os que se interessem a participar da construção coletiva de uma sociedade que seja mais justa, mais igualitária e mais equitativa — que respeite as expressividades, as possibilidades de existir.

Mas hoje, enquanto escrevo esta crônica, preciso reconhecer minhas limitações. Eu não consigo ler os cenários de uma forma tão segura a ponto de apresentar a quem me acompanha uma visão tranquila e de esperança.

Não. Infelizmente, não é possível.

Uma série de explicações, de toda ordem, estão postas. Muitas delas bastante fundamentadas. Mas nenhuma delas esclarece a situação.

Há explicações para todos os gostos. Crise do capitalismo, ameaças da Inteligência Artificial, ressentimento social, redes manipulando emoções, exaustão com as instituições. Algumas delas são complexas, compreensíveis somente por especialistas. Outras, genéricas e convenientes aos grupos que as adotam.

Mas nenhuma delas, para mim, neste momento, esclarece o presente. O fato é que o pior pode acontecer.

Em alguns momentos, eu temo perder a segurança em relação ao nosso patrimônio, à nossa integridade física. Isso pode acontecer quando a Justiça passa a ser questionada.

Eu me pego imaginando as diversas situações em que seremos obrigados a performar comportamentos sociais padronizados. Isso seria bastante provável caso o caminho seja mesmo uma teocracia…

No fundo, meu grande medo é que esteja se aproximando um momento em que cada um de nós terá que se esconder de todos, porque qualquer distorção entre a própria existência e aquilo que será usado como métrica de ideal será material para chantagens e manipulações.

Sim. PODE acontecer. Não significa que acontecerá.

Pode ser que eu esteja somente repercutindo, neste momento, todas as dores dos traumas que passei e que me tornaram quem eu sou.

Mas eu imagino que, assim como eu, outra pessoa, ou mais de uma, também esteja sentindo o mesmo.

Então, mesmo que não consiga abandonar minhas próprias inseguranças, eu preciso encontrar forças para dizer:

Se o pior acontecer, seguiremos.

Sim, seguiremos.

Não porque seremos heróis. Ou porque somos moralmente superiores.

Seguiremos porque é o único caminho possível.

Primeiro, sobrevivendo.

Depois, lutando.

Se a esperança precisa ser semeada, vale reconhecer que quem sobreviver poderá, no futuro, transformar a luta em arte.

Nós existimos, e existimos melhor quando não esquecemos de nossa própria dignidade.