Pega a caneca. Leva à boca. Sorve um gole. A água está em temperatura ambiente. Ótimo.

Respira.

–– A gente começa depois da musiquinha, tá?

–– Tá bem!

–– Eu gosto de colocar a musiquinha. Não se usa mais, mas eu acredito que ela tem um ar saudosista, ela introduz…

–– Entendo.

–– Mas pode ficar calmo.

–– Eu tô calmo.

O videomaker dá o sinal. Devem começar a conversar logo depois do jingle de abertura.

Musiquinha.

Olhando para a câmera.

–– Oi, pessoal. Hoje o entrevistado é um achado. Ele tem uma longa e bela carreira, com vários livros publicados e prêmios em concursos. Mas o que ele vai falar conosco hoje é sobre um evento histórico de que participou. Isso é muito bacana porque não é todo dia que se faz história.

Olha para o entrevistado.

–– Cara, que bacana que você está aqui. Quando você mandou o direct contando o que tinha feito, a gente quis na hora conhecer sua história.

–– Sim, obrigado pelo convite. Foi mesmo uma loucura participar do…

–– Opa! Não entrega o jogo tão cedo. Vamos deixar nosso seguidor curioso. Vai valer a pena descobrir no final. Até porque, para entender o que aconteceu, precisamos saber um pouco mais de você. Você é poeta desde quando?

–– Ah, desde muito pequeno. Acho que um poeta é quem vê a poesia nas coisas, não é?

–– É?

–– Eu via desde pequeno. Me chamavam a atenção a arte, a beleza. E assim que comecei a ler e escrever, e que descobri a poesia, comecei a fazer meus próprios versos.

–– Desde pequeno? Como descobriu a poesia?

–– Eu queria minha própria versão de “Batatinha quando nasce”…

–– É mesmo? E fez?

–– Fiz. “Cebolinha quando flora”!

–– Cebolinha?

–– É sobre uma cebola que ficou muito tempo na geladeira e, quando a gente viu, tinha crescido uma plantinha…

–– E você fez uma poesia disso?

–– Eu fiz um poema. A poesia foi ter percebido a beleza de um objeto esquecido no fundo de uma geladeira ter se rebelado contra seu destino e criado vida.

–– Surreal.

–– Ele me fez ver de outra forma os alimentos, entende?

–– Veganos devem entender. Mas você cresceu e continuou fazendo poesia. Aqui diz que você publicou livros.

–– Sim. Tenho oito livros de poesia.

–– Bacana. Qual editora?

–– É… autopublicação. Assim eu tenho mais liberdade criativa e editorial, entende?

–– Sim. Mas você ganhou concursos?

–– Ganhei vários. Sem contar os concursos do tempo de escola, ganhei o primeiro lugar em Piracicaba e, no ano passado, ganhei o prêmio de poesia em Resende. Mas também fiquei três vezes como finalista naquele prêmio nacional que é sempre divulgado na internet…

–– E o evento histórico?

–– Então… Foi numa comunidade do Orkut que a gente se reuniu. Gente de todo tipo de arte. Tinha cantor, compositor, ator, escritor. E todo mundo tinha boas histórias sobre não ser descoberto.

–– Não tiveram sorte?

–– Não era isso. Na época, para se tornar conhecido, precisava ser aceito por alguma grande empresa. Uma gravadora, uma editora, pela televisão. As pessoas faziam qualquer coisa para terem uma oportunidade.

–– Acho que já ouvi falar sobre algumas fofocas de bastidores. Principalmente sobre sofás…

–– Sim. Era terrível. Tinha quem se submetia e não conseguia nada. Aquilo revoltava.

–– E o que fizeram?

–– Começamos a reunir as pessoas para protestar. Criamos novas comunidades, criamos redes de amizades por MSN, gente da cidade toda. Com o tempo, até gente de outras cidades. Daí fizemos uma passeata!

–– Foi?

–– Sim.

–– E deu certo?

–– Deu muito certo. Aparecemos na TV, nos jornais. Logo a comunidade do Orkut estava enorme e pessoas de outros países passaram a participar também.

–– De onde?

–– Inglaterra, França, Califórnia… Tinha japonês também. Mas o manifesto acabou sendo traduzido para o inglês mesmo. Teve até um grupo de lá que quis organizar um evento internacional.

–– Ô loco!

–– Foi mesmo uma loucura. Foi marcada uma grande passeata em NY. E é aí que participei da história!

–– Como assim?

–– Vários amigos e eu demos um jeito de juntar dinheiro e fomos para lá. Foi uma loucura, a gente ainda era estudante ou tinha acabado de se formar. Sem grana, enfim.

–– Mas foram mesmo assim?

–– Todo mundo queria uma chance.

–– E tiveram?

–– Aí é que está! O evento até revelou dois ou três artistas que participaram. Até um dos líderes. Teve um rapaz que fez várias pontas em filmes de Hollywood. Mas a chance mesmo veio com a mudança que desencadeou.

–– Como assim?

–– A manifestação foi em uma avenida muito importante, cheia de restaurantes. Três amigos que trabalhavam com negócios na internet ficaram impressionados com a quantidade de pessoas.

–– Tinham muitas?

–– Não era só a quantidade. Era muita gente que tinha gastado uma boa grana para tentar uma chance.

–– E aí?

–– Naquela noite, no jantar, eles resolveram fundar uma empresa que permitia que qualquer pessoa pudesse produzir um vídeo para mostrar seus talentos e apresentar para o mundo.

–– Sim, mas até aí…

–– Sem ter que passar por nenhuma empresa! Sem ter que ser aceito por ninguém para então encontrar seu público. Entende?

–– Mas isso já existe.

–– Mas não existia até aquela data! Foi naquele dia que eles criaram o YouTube!

–– Uau!

–– Isso é, ou não é, histórico?

Um lapso de silêncio, muito rápido.

–– Realmente. Até fiquei sem palavras. Parabéns, meu camarada. Que história incrível.

Olha para a câmera.

–– Se você gostou da história do nosso amigo, curte, comenta e compartilha. E se você tem alguma história sua para contar, manda um direct que a gente te chama para um bate-papo. Até a próxima!

Musiquinha.

–– Eu gosto da musiquinha.

–– Ela é bonita mesmo.

–– Amigo, obrigado pela entrevista. Vamos editar e subir. A sua história é tão interessante que dessa vez vai bombar! Eu tô contente.

–– Eu que agradeço.

Se cumprimentam com as mãos, seguindo para um abraço amistoso.

O videomaker desliga a iluminação.

Enquanto o entrevistado sai, tira o microfone.

–– Agora vai, não vai?

O videomaker, ocupado, desmontando seus equipamentos:

–– Vai. Ficou ótimo!