Toda vez que o pequeno Sagui seguia para a escola, passava pelo parque onde lhe chamava a atenção a forma como a velha Coruja olhava, de cima de uma árvore, para tudo e para o nada. Seus enormes olhos brilhavam como se estivesse vendo algo fascinante, ao passo que pareciam não fitar nada.

A exceção era quando algo chamava a atenção. Sua cabeça girava até quase dar uma volta completa sobre o pescoço, se preciso fosse. Nessas ocasiões, o olhar era tão profundo que parecia que ela conseguia ver o interior daquilo que lhe chamasse atenção.

Na escola, o Sagui tentava prestar atenção no que o professor Galo ou a professora Vaca ensinavam. Algumas coisas eram interessantes e fáceis de assimilar. Outras eram muito complicadas. Ele olhava para seus colegas, o Lobinho, o Tatu, os vários primos cachorrinhos e quase todos os outros, e não via ninguém que conseguisse aprender tudo. Na verdade, a maioria parecia não se interessar.

Já ele se esforçava para tentar aprender. E uma coisa que o irritava muito era quando o professor Sabiá explicava uma nova conta matemática e alguém perguntava:

– Professor, mas para que vai servir isso na vida real?

O tom da pergunta era deboche, e aquilo subvertia o sentido do que de fato se perguntava. Quem perguntou não queria saber para que servia, mas dizer que não servia para nada.

Sagui não entendia se ficava incomodado com o pouco caso do colega, ou da incapacidade de o professor Sabiá explicar. Ele entendia que o saber, em si, iria conduzi-lo a algum lugar. E que isso aconteceria em algum momento do futuro. Então, a má vontade de quem perguntava podia ser por preguiça ou preconceito, mas uma pessoa que tinha tanto saber a ponto de ensinar deveria dar pelo menos um exemplo. O professor Sabiá decepcionava.

E não era só com a matemática. A professora Girafa não explicava como aquelas coisas da Geografia serviam para o dia a dia. O professor Arara tampouco em História. A professora Mula só queria ensinar regras chatas de gramática…

Um dia, conversando com o amigo Mico Preto, ouviu sobre o professor Coruja. Ele era bastante querido pelos alunos mais esforçados — como eles, mas malquisto pelos pais dos piores estudantes.

– Coruja? Será que é parente daquela que fica sempre na praça?

– Aquela coruja que é o prof. Coruja!

Na volta para casa, não se conteve. Um tanto quanto amedrontado, e doutra ponta envergonhado, abordou a Coruja.

Os olhos esbugalhados que ela lhe lançou o assustaram. Mas uma voz surpreendentemente calorosa o acolheu.

– O que quer, filhote?

– O senhor foi professor na minha escola?

A Coruja ficou um pouco em silêncio. Depois riu piados estridentes.

E ao responder, novas perguntas surgiram.

A Coruja percebeu que o pequeno Sagui era um garoto interessado em aprender. Ter contato com alunos como ele era uma das poucas boas lembranças que tinha de seu passado como professor. Conversou com o rapazinho, atendendo suas curiosidades naquilo que achava conveniente, mas também buscando dispensá-lo.

A surpresa foi ver o filhote de sagui voltar todos os dias. E cada dia com novas questões. Muitas coisas que via na escola, e que com ele podia conversar como se não se tratasse de conteúdos escolares.

Nestas conversas, aquilo que poderia se encaixar em uma relação informal de professor e aluno, virou mais um tipo de relação de amizade.

Numa ocasião, Sagui traz uma dificuldade. Ele estava tentando aprender sobre números decimais, frações, percentuais. Entendia as contas, mas não conseguia, no ambiente da escola, compreender como elas se aplicavam na vida real.

A Coruja explicou:

– O conhecimento sobre proporções, que podem envolver qualquer uma das formas de expressão de números que você trouxe, é um dos saberes mais úteis que você pode ter na vida. Eles podem, por exemplo, te fazer compreender as relações de forças entre as pessoas.

Saguizinho quis saber mais. O seu novo professor particular continuou:

– É uma forma de expressar racionalmente o que forma alguma coisa. Na sua sala de aula, por exemplo. Se você contar quantos animaizinhos de cada tipo tem, e dividi-los pelo número total de alunos, vai ter como resultado um número decimal, ou também uma fração. Esse número vai mostrar a proporção que cada tipo de animal tem no conjunto de alunos. Você pode fazer um teste, e inclusive criar categorias.

O professor foi explicando, e o pequeno Sagui percebeu que a proporção de mamíferos em sua sala de aula era maior que a proporção de aves. E que répteis e peixes eram proporcionalmente menores. E entendeu ainda melhor quando, calculando a mesma proporção em outras escolas, viu que havia aquelas cuja proporção de peixes grandes, ou répteis, ou ainda grandes mamíferos predadores, eram maiores do que a dos tipos de animais que faziam parte de sua própria escola.

– O que você consegue descobrir com isso?

– Não sei…

– Pensa bem!

– Que existem escolas diferentes para cada tipo de animal?

– Muito bom. E o que mais?

– Será que naquelas escolas são ensinadas as mesmas coisas que na minha?

O professor Coruja arregalou ainda mais seus olhos, quase marejados de orgulho. Parabenizou o pequeno Sagui e explicou que, na maioria das vezes, o conhecimento, mais do que levar a uma resposta, leva a uma nova pergunta.

Foi quando o pequeno Sagui entendeu o que era a construção do conhecimento!

Com o passar dos dias, as conversas entre os dois ficavam cada vez mais empolgantes e demoradas. Quando Sagui trouxe, da aula de Geografia, o conceito de demografia, perguntou por que havia comunidades com menor poder aquisitivo e outras com maior riqueza. E perguntou, principalmente, por que apenas algumas eram ricas.

O professor Coruja preferiu explicar com o conceito de proporção.

– Quando alguém trabalha, tem sua renda do tempo que dispende ao dedicar-se a alguma empresa, ao seu empregador. O dinheiro que ele recebe deve, se ele for bem remunerado, pagar os gastos que terá para sobreviver. Um percentual vai para alimentação, outro para saúde, um pouco para educação, para lazer, e assim por diante. Muitas vezes o dinheiro não é suficiente, então uma parte dos gastos é custeada pelo Estado, que junta recursos através dos impostos. Os impostos, por sua vez, são recolhidos em um percentual sobre o que recebem, sobre o que gastam, sobre o que possuem. Na maioria das vezes, o que a pessoa recebe não permite que ela faça alguma poupança, que guarde dinheiro. Mas a sociedade sugere que o faça, para que possa ser rica.

E o que é ser rico? Perguntou o Sagui curioso.

– Há teorias diferentes para se definir. Mas a que prefiro mais é que ser rico é não precisar trabalhar para viver.

– E por que prefere ela?

– Porque ela lembra a pessoa que ela pode escolher o seu limite. Isso acontece quando a renda que ele possui, ao ser dividida pela taxa de retorno, ou taxa de juros, na qual ele aplica ou empresta seu dinheiro, gera um cupom que seja igual ou maior que os gastos do período.

E foi explicando em detalhes. Tudo dependia de quanto se gasta por mês, de quanto se recebe ao emprestar dinheiro para organizações ou se tornando sócio delas, e de quanto de juro estas organizações pagam.

– É só dividir a renda pela taxa de juros. Se o valor for maior que o que se gasta naquele período, a pessoa será cada vez mais rica. Se ela não se deslumbrar, e consumir menos, precisará também de menos renda.

– Mas existem pessoas que querem coisas cada vez mais caras, não existem?

– Sim. E como esse saber que agora você tem pode explicar o seu dia a dia?

– Ele me explica por que existem escolas diferentes. Algumas são caras demais para que quem não tem essa renda possa pagar.

– Muito bem, pequeno aprendiz!

O pequeno Sagui ficou feliz com o elogio. Mas também ficou pensativo:

– Mas, professor Coruja, por que as pessoas aceitam que umas tenham mais e outras menos? Me parece injusto.

– É uma questão complicada, pequeno Sagui. Mas, de modo geral, as pessoas aceitam isso porque, em tese, todo mundo poderia acumular riqueza se fizerem poupança. Essa crença estimula as pessoas a tentarem trabalhar mais, melhor, e juntarem dinheiro.

– E elas conseguem?

– Talvez a resposta seja outra pergunta: quantas delas conseguem? E, em condições elas conseguem? Mas falar sobre isso fica para outro dia.

Nos dias que se seguiram, o professor Coruja foi explicando para o pequeno Sagui como as pessoas são ensinadas a aplicar seus recursos. Sobre a poupança, que paga uma taxa por mês, sobre títulos do Tesouro, sobre empréstimos a empresas e a bancos. Tudo na forma de investimentos de renda fixa.

Explicou então sobre risco e falou sobre renda variável. No fim, o pequeno Sagui sabia a diferença entre ser investidor e ser acionista. Quando falou para o professor Coruja que queria ser um capitalista com muito dinheiro aplicado quando crescesse, o professor Coruja sorriu com o bico, mas seus olhos estavam tristes e cabisbaixos.

Coruja passou um tempo sem muito ânimo para ensinar novas coisas. Até que um dia Sagui chega com uma pergunta: o que é Democracia?

O professor Coruja volta a se animar. Explica sobre o que havia sido a monarquia absolutista. Explica sobre a primeira constituição. Fala sobre a Revolução Francesa e sobre o sofrimento que houve para que o povo compreendesse que era preciso haver equilíbrio entre os interesses das diferentes classes sociais. Explicou sobre o poder executivo, legislativo e judiciário. Explicou sobre democracia direta e sobre democracia representativa, na qual as pessoas escolhem representantes para decidirem em nome da coletividade.

Ficaram nessas conversas por algumas semanas. Até que o pequeno Sagui surpreendeu com um desejo:

– Eu queria ver uma coisa na realidade que juntasse tudo isso que aprendi contigo!

O professor Coruja olhou para o céu, pensou um tempo e pediu para ele trazer um jornal atual no dia seguinte.

No dia seguinte, o professor Coruja pediu que Sagui levasse um jornal.

Entre tantas notícias, escolheu uma pequena nota.

— Leia esta.

O pequeno Sagui leu em voz alta:

— “Uma grande empresa entrou com pedido de recuperação judicial. O plano prevê diferentes formas de pagamento aos credores.”

Levantou os olhos.

— Professor, o que é recuperação judicial?

A Coruja permaneceu alguns instantes em silêncio.

— Imagine um fazendeiro cujo galinheiro tenha sido atingido por uma grande tempestade. Ele ainda tem terras, ferramentas e trabalhadores. Sabe produzir ovos. Mas passou a dever tanto milho, tanta ração e tantos equipamentos que não consegue pagar tudo ao mesmo tempo. Se todos os credores cobrarem imediatamente, o galinheiro fecha. Ninguém recebe. Nem quem emprestou, nem quem trabalha.

Sagui fez um gesto afirmativo.

— Então a recuperação judicial serve para evitar isso?

— Exatamente. Ela procura reorganizar as dívidas para que a empresa continue funcionando. Se der certo, ela volta a produzir riqueza. Funcionários mantêm seus empregos, fornecedores continuam vendendo, clientes continuam comprando e os próprios credores têm mais chances de receber do que teriam numa falência.

— Então parece uma boa ideia.

— Muitas vezes é.

O professor desenhou três círculos na areia.

No primeiro escreveu:

Credores.

No segundo:

Acionistas.

No terceiro:

Empresa.

— Quando alguém empresta dinheiro a uma empresa, ele vira dono dela?

— Não.

— Então o que ele espera?

— Receber o dinheiro de volta, com juros.

— Muito bem. Já quem compra ações aceita outro tipo de acordo. Em vez de juros previamente combinados, participa dos lucros e dos prejuízos. Pode ganhar muito mais. Mas também pode perder.

Sagui concordou.

Coruja então apontou novamente para o jornal.

— Agora veja este plano de recuperação.

O pequeno Sagui leu com atenção.

— Alguns grandes credores poderão transformar parte dos seus créditos em ações da empresa…

Parou por um instante.

— Então eles deixam de ser apenas credores e passam a ser sócios?

— Exatamente.

— E, se a empresa voltar a crescer, poderão ganhar bastante dinheiro.

— Poderão.

Sagui sorriu.

— Parece uma ótima oportunidade.

— Pode ser.

O professor desenhou um quarto círculo.

Dentro dele escreveu:

Pequenos credores.

— Eles também receberam essa possibilidade?

Sagui voltou ao jornal.

Leu novamente.

Franziu a testa.

— Aqui diz que não.

— E o que lhes foi proposto?

— Receber um valor menor… ou esperar muitos anos para receber integralmente.

A Coruja permaneceu em silêncio.

Foi o pequeno Sagui quem voltou a falar.

— Então alguns puderam escolher assumir mais risco para participar de um possível ganho futuro…

— Sim.

— …e outros não tiveram essa oportunidade.

— Exatamente.

Sagui permaneceu olhando para os círculos desenhados na areia.

— Professor… isso quer dizer que a recuperação judicial é injusta?

A Coruja balançou lentamente a cabeça.

— Não necessariamente.

— Como assim?

— Muitas recuperações judiciais salvam empresas viáveis, preservam empregos e permitem que credores recebam muito mais do que receberiam numa falência. O instituto, em si, tem uma finalidade importante.

Fez uma pequena pausa.

— A pergunta interessante é outra.

— Qual?

— Como a lei permite organizar essas negociações? Quem pode negociar? Quem pode assumir determinados riscos? Quem recebe determinadas oportunidades? Quem define essas regras?

Sagui permaneceu calado.

A Coruja continuou.

— As leis procuram equilibrar interesses muito diferentes. Nem sempre conseguem fazê-lo de forma perfeita. Dependendo da forma como são escritas, podem criar incentivos econômicos bastante distintos para grupos diferentes de pessoas.

O pequeno Sagui olhou novamente para o jornal.

— Então uma lei pode beneficiar alguns mais do que outros… mesmo sem dizer isso claramente?

— Pode.

— E isso continua sendo legal?

— Pode continuar sendo perfeitamente legal. A pergunta deixa de ser jurídica e passa a ser política.

Sagui parecia cada vez mais intrigado.

— Política?

— Sim. Porque são os representantes da sociedade que escrevem as leis. E, quando uma lei produz consequências que a própria sociedade considera inadequadas, cabe justamente à sociedade discutir se deseja mantê-la, modificá-la ou substituí-la.

O pequeno Sagui ficou longo tempo olhando para os desenhos na areia.

Percebeu que, durante semanas, havia aprendido matemática para medir proporções; economia para compreender incentivos; história para entender como as instituições surgiam; e democracia para descobrir quem escrevia as regras.

Pela primeira vez enxergava que todos aqueles conhecimentos tratavam, no fundo, da mesma pergunta:

Quem decide as regras segundo as quais a sociedade funciona?

Sagui não dormiu naquela noite.

No dia seguinte, levantou o debate em sala de aula. Sem ter nem o tempo, nem o conhecimento, nem a paciência do professor Coruja, foi logo dizendo que os pobres se ferram na mão dos ricos.

Isso causou desconforto. Um pinscher que gostava de se imaginar um doberman latiu sem parar. Um bagre que tinha um parente distante que era um tubarão também se revoltou. A confusão foi tanta que Sagui foi parar na diretoria.

A diretora, Dona Raposa, foi muito carinhosa. Ouviu as explicações do pequeno Sagui enquanto lhe oferecia um chá. Depois, disse que tudo aquilo era parte da sociedade organizada e que aquela empresa não havia feito nada de ilegal. Que quem perdeu dinheiro teria aprendido com a experiência e se tornaria um melhor investidor no futuro. Que era parte da sociedade capitalista.

Ela falava com uma voz tão macia e acolhedora que, em alguns momentos, Saguizinho chegou a esquecer partes do que o professor Coruja havia ensinado.

Quando ele esboçou dúvidas, a Dona Raposa o alarmou:

– Aquela coruja com quem você está falando é uma predadora. Ela devora criancinhas como você. Você correu perigo ao se envolver com ela.

E passou a falar sobre o comunismo e seus perigos. Mostrou fotos de alguns grandes tubarões, de alguns leões, até de um poderoso rinoceronte, que eram tão ricos a ponto de fazerem caridades. E esclareceu:

– Você acha justo criticar estas pessoas que são ricas porque fizeram por merecer, sabendo que elas já fizeram doações para a escola que te ensina tanto?

Enquanto o pequeno Sagui ficava em silêncio, pensativo e cabisbaixo, a Dona Raposa falou que iria chamar os seus pais.

Os pais chegaram e ficaram alarmados. Preocuparam-se que algo pudesse ter sido feito ao filhote. Determinaram que ele nunca mais iria ver a velha coruja. O pequeno Sagui passou semanas sem voltar ao parque.

Aliás, quando passava, já não via mais o professor Coruja pousado sobre o banco que costumava estar.

Até que, em uma tarde de outono, o avistou.

Venceu o medo e foi procurá-lo.

O professor Coruja alertou que era melhor ele se poupar. Explicou que o policial Doberman o ameaçou de retaliação caso o visse com filhotes na praça. Mas terminou dizendo que era para o pequeno Sagui continuar estudando por conta própria. Tudo, de sociologia a economia. De matemática à filosofia.

E que, se pudesse, ensinasse aos colegas. Era somente através do conhecimento difundido que seria possível controlar quem toma decisões pela maioria, sem que o fizessem somente em benefício próprio.

Então o pequeno Sagui fez uma última pergunta:

– Professor, se fosse para ensinar uma única lição aos meus colegas, qual seria ela?

– Que sempre que se abre vaga para guarda de galinheiro, são as raposas que mais se candidatam!