O delicado equilíbrio entre o que é da gente e o que é do outro sempre está presente na minha escrita. Como alguém desenvolver identidade, tendo ao mesmo tempo a liberdade de se construir como sujeito, e ao mesmo tempo o desafio de lidar com o mesmo processo no outro? Essa questão não se esgota em si, e gerou, e gerará, muitas crônicas e personagens. Mas o que trago aqui é que ela não se iniciou agora. Também esteve presente na minha mais importante incursão pela literatura – minha tese de doutoramento.

Dou a ela, agora, outra roupagem, mais coloquial!

De certo modo, um conceito que parte de uma premissa: o ser humano, livre de conceitos e ideias que lhe impunham valores e necessidades, podem encontrar autorrealização com mais liberdade e, talvez, até mais facilidade do que quando submetido à grande número de padrões normativos. É uma premissa simples: o ser humano é impulsionado pelo desejo, e o desejo configurado pela cultura. O desejo, ao ganhar nome, se torna objeto de desejo. E para os objetos de desejo, move-se.

Aceita a premissa, podemos aceitar que num passado remoto os objetos de desejo eram menos detalhados. Uso esse termo porque comparar as necessidades de alguém na idade média (ser aceito no reino dos céus, ou sobreviver a um inverno) não deveria ser menos sofisticado ou menos difícil que os objetos de desejo atuais. Ainda assim, pressuposto que eram menos cravejados de peculiaridades – quem se endivida no cartão de crédito para trocar um Iphone penúltimo tipo por sua versão mais atual sabe bem do que estou falando.

A questão, portanto, é que o desenvolvimento do capitalismo levou o ser humano a descobrir novas, e mais específicas, necessidades. Há uma boa gama de pensadores que tratam disso, ao abordarem motivação. É um tema importante da administração, especialmente na época em que o ser humano era visto como um recurso para a produção.

Naquela época, produtos e serviços complexos e sofisticados eram desenvolvidos, e boa parte de suas etapas de produção requeriam o desempenho dos seres humanos. A ação humana precisava ser fortemente coordenada, combinando o trabalho de um ser humano com aqueles que lhe antecediam e sucediam nas cadeias de valor, de modo que fosse possível tanto a eficiência de se terminar o processo, como a eficácia de o fazê-lo sem desperdícios de recursos.

Era uma época em que o ser humano precisava ser “um bom trabalhador”. Gosto de usar esse termo porque ele é a base do filme institucional da antiga Fábrica Nacional de Motores (FNM), que produzia caminhões e ônibus brasileiros entre as décadas de 1950 e 1980. Para entender o que quero dizer, sugiro assisti-lo: https://youtu.be/qFvSZD9tDQc?si=p6W-d78PWNkPT2tm

É uma ilustração do modo como os sistemas de produção, ao passo que podiam oferecer, ao lugar das carroças e carruagens do feudalismo, caminhões potentes e capazes de transportar cargas que antes seriam impossíveis. Mas também exigia que o ser humano fosse alguém que cumprisse uma série de parâmetros de comportamentos, dentro e fora da empresa. Sim, porque um problema pessoal poderia afetar o processo produtivo. Então, uma empresa como a FNM fazer um filme explicando o que é “um bom trabalhador” era algo que destoa do pitoresco que agora nos parece: era uma necessidade óbvia, como parte dos controles culturais.

Para que os seres humanos desempenhem adequadamente suas funções dentro dos processos produtivos são utilizados vários tipos de controle. A seleção de cada um deles pode variar, em função das características do cargo e das funções (da posição individual), mas para todos os controles culturais são fundamentais porque direcionam o ser humano a pensar de acordo com a forma como a organização se estrutura – e que cria a sincronicidade e a congruência de objetivos.

Uma “boa organização”, nessa etapa do capitalismo, era aquela que conseguia desenhar posições individuais com competência o suficiente para que cada individuo soubesse satisfatoriamente como deveria agir, e acompanhá-lo em seu desempenho.

O que me intrigava, no meu doutoramento, era como os processos de gestão (práticas contábeis, controladoria, controle gerencial e controle de modo amplo inclusas) afetavam esse ser humano. O conceito de “contrato psicológico”, por indicar o que um ser humano acredita ser compromisso seu na relação de trocas que cria na própria mente sobre a relação que tem com seu empregador foi uma boa solução encontrada. Tese: Sistemas de Controle e Contratos Psicológicos: (https://teses.usp.br/teses/disponiveis/12/12136/tde-20022014-154338/publico/IvanCananVC.pdf) .

Spoiler: Foi uma análise bastante preliminar, que não permite generalizações. Porém, a título de construção de caminhos para compreensão do fenômeno, os resultados mostraram que só ao indicar que algo deve ser feito pelo trabalhador já se estabelece um nível bastante alto de compromissos assumidos. Mas se são utilizados mecanismos para apurar o desempenho, o nível de compromisso aumenta. Agora, plot twist – o compromisso aumenta ainda mais se a organização chama o trabalhador para conversar sobre aquilo que estabeleceu como compromisso para ela.

Como forma de definir o que era cada especificidade que as organizações criam para serem assumidas por seus trabalhadores eu usei o termo “parâmetro comportamental”. E aprofundando o conceito de contrato psicológico de Denise Rousseau, mais tarde, ao investigar um grupo de médicos, descobri que eles assumiam como compromissos parâmetros comportamentais que vinham de outras organizações, como escolas, conselhos profissionais, e práticas de mercado.

Eu abandonei a carreira acadêmica para outros mais competentes. Mas uma questão me acompanhou: se as pessoas desenham suas próprias interpretações sobre suas posições individuais nas organizações, estes mesmos parâmetros comportamentais não seriam levados para outros aspectos da vida do ser humano?

A princípio, pela forma de gestão atual, não necessariamente.

Não estamos mais na época do “o bom trabalhador”!

Agora os processos de gestão são desenhados com tal nível de sofisticação e automação que o ser humano é instruído e controlado (tem seu desempenho averiguado e é chamado a conversar sobre) em níveis muito mais precisos que outrora. Dito isso, seu comportamento fora do trabalho se tornou muito menos relevante. Ele pode fazer o que quiser da vida – salvo exceções dependendo de cada cultura organizacional – desde que o desempenho funcional seja eficiente e eficaz. (Como base de comparação, é fácil encontrar vídeos que mostram os modernos processos produtivos de automóveis – automatizados e robotizados).

Seria, portanto, um progresso?

Essa é a crônica. Primeiro, porque o papel do ser humano na atual fase do capitalismo é ser “um bom consumidor”. As redes sociais, os algoritmos, a cultura de massas, tudo é organizado para sincronizar as necessidades e objetos de desejos das pessoas para produtos, mercadorias e serviços que saem das linhas de produção dos grandes conglomerados.

Até mesmo a escolha por futuras profissões é estabelecido por conteúdos informativos: aos com maior acesso à informação são estimuladas profissões que geram grande capacidade de pensamento estratégico. À massa, o papel de influenciadores – o equivalente moderno ao “homem da cobra”, cujo trabalho era atrair a atenção das pessoas para as lojas onde as mercadorias e serviços eram vendidos antigamente.

Então, é preciso uma boa dose de reflexão para decidir se o nível de controle sobre o ser humano, ou seu espaço de existência no mundo, diminuiu ou aumentou.

Como dado final: numa das minhas últimas edições do curso de controle gerencial, apresentei para um grupo de alunos os conceitos de controle, e ilustrei com os vídeos da FNM e de uma moderna empresa atual (CAOA).

Minha surpresa é que eles defenderam, com um saudosismo impossível para sua idade, a vida na fábrica no sopé da Serra do Mar…