Uma névoa de tensão paira no ar. É, na verdade, mais uma tensão que se cria, inconscientemente, ao se pressentir um aumento de tensão que surgirá no horizonte. É uma pré-tensão! Talvez uma pretensão de se achar capaz de imaginar e predizer um futuro que é feito coletivamente.
Refiro-me à tensão que paira sobre o tema das eleições do final do ano. Neste momento histórico, para os cargos executivos e legislativos de âmbito nacional e estadual no Brasil, e para a composição do Legislativo americano — que pode limitar os poderes de Trump e permitir que nossas angústias com suas decisões tresloucadas e imprevisíveis sejam, talvez, controladas.
É uma tensão compreensível. O poder que se concentra nas mãos de quem estabelece as normas que regem nossa convivência em sociedade está diretamente relacionado à forma como cada um de nós consegue conceber a própria existência. Dos nossos desejos, para partir de um âmbito psicológico, à nossa capacidade de garantir nossa segurança e nossa existência, nos âmbitos social e econômico, tudo é impactado pelas regras de convivência social. É a lei, que se apresenta posta. Nós a cumpriremos ou a desobedeceremos e, em ambos os casos, teremos que lidar com isso.
Imagine que as leis em torno das quais você aprendeu a se organizar serão modificadas? Independentemente de você preferir que elas mudem ou permaneçam, a possibilidade de que se modifiquem aos moldes do que concebem aqueles que detêm o poder cria a tensão. É assim nas eleições democráticas, mas não deve ter sido diferente quando um rei absolutista agonizava e se esperava um herdeiro em seu lugar.
Talvez a tensão deste momento seja mais acentuada, entretanto, porque existem campos discursivos que propõem visões contrastantes de mundo.
Numa perspectiva ideológica, seria a divisão entre direita e esquerda. Mas, como, na prática, esses nomes dizem pouco sobre a realidade, talvez seja melhor afirmar que ideologicamente o que causa as tensões são as visões de mundo pela perspectiva dos conflitos de classe: há os que pensam do ponto de vista dos trabalhadores (a população em geral), e há os que pensam pela perspectiva dos detentores de capital.
Já numa perspectiva econômica, seria a divisão entre liberais e desenvolvimentistas. De um lado, aqueles que acreditam que não devem ser estabelecidos pactos que delimitem ou intervenham na maneira como os indivíduos podem fazer trocas econômicas (nessa perspectiva, todas as trocas são econômicas); de outro, aqueles que defendem que os pactos são necessários para proteger os mais frágeis do poder dos mais impiedosos. Na prática, vai da decisão de liberar qualquer prática econômica sem considerar meio ambiente, relações trabalhistas, saúde pública, entre outros aspectos, ao seu oposto, chegando à existência de empresas estatais em determinados segmentos da economia. Os radicalismos, de um lado e de outro, são uma terra sem lei contra uma economia estatizada — uma selva versus o comunismo.
Seria mais fácil lidar com as tensões se essas perspectivas conseguissem, de fato, explicar a realidade. Mas não o fazem! É fácil reconhecer que há governantes que se alinham à esquerda e mantêm políticas públicas que beneficiam e estimulam empresas ou segmentos econômicos. É fácil reconhecer governantes que se alinham à direita e estabelecem gastos e investimentos voltados diretamente à população — mesmo que sejam taxados como políticas assistencialistas.
Igualmente, é fácil reconhecer governos liberais que praticam investimentos em seus segmentos preferidos ou interferem no mercado fazendo desregulamentações seletivas, assim como é fácil reconhecer governos desenvolvimentistas que se afastam de mercados onde a concorrência tende a mostrar eficiência, ou cortam gastos quando o equilíbrio das contas públicas ameaça sair do controle.
A bem da verdade, é mais prudente pensar a realidade como um espaço em que governos agem com práticas ora mais alinhadas a um polo, ora a outro, conforme as demandas de uma sociedade em mutação. Se há formas mais confiáveis de diferenciá-los, talvez seja pela competência ou incompetência — geralmente sendo os mais autocráticos ligados a essa segunda característica.
Só que, no âmbito pessoal, não é assim que agimos. Não fazemos tratados econômicos ou sociológicos. Agimos de acordo com o ambiente em que estamos inseridos. E, na maioria das vezes, nossas escolhas de argumentos e de políticos preferidos acabam ocorrendo em função dos grupos aos quais queremos pertencer. E os grupos, incentivados por ações dos próprios interessados em se eleger, tendem a se radicalizar uns contra os outros.
Quando um político consegue agregar em torno de si um contingente grande o suficiente para ter ares de movimento social, costuma-se classificá-lo como populista. A onda que surge no movimento em que ele se destaca costuma adotar seu nome, acompanhado do sufixo “ismo” (a pessoa que nele se enquadra, com o sufixo “ista”). No Brasil já houve o Getulismo, o Lacerdismo, o Brizolismo, o Malufismo, o Lulismo, e a mais recente onda é o Bolsonarismo.
Em cada uma delas, sejam getulistas, lacerdistas, brizolistas, malufistas, lulistas ou bolsonaristas, houve defesa apaixonada dos mantras criados para caracterizar o movimento e das normas sociais que foram sendo criadas em torno deles. No convívio do dia a dia, qualquer “ista” fiscaliza o outro, assim como tenta se adequar ao que prega seu “ismo” preferido. E isso ultrapassa a racionalidade para entrar no campo das paixões.
O fenômeno que trata do comportamento dos indivíduos quando se inserem em multidões ou coletivos costuma ser chamado de cultura de massa.
Muitos pensadores relevantes se dedicaram, e se dedicam, a estudar a cultura de massa. Dos que a definiram aos que a criticaram, chegou-se aos que buscam compreendê-la. Tratando-se de um fenômeno social, propor o simples combate talvez seja apenas se tornar parte do próprio movimento. A compreensão pode explicar seu funcionamento.
Compreender o funcionamento de algo permite prever possibilidades futuras. Compreendê-las diminui nossas tensões!
E uma das coisas que se costuma alegar sobre movimentos é que eles tendem a perder a força pelo esgotamento de seus próprios recursos. Pagam o preço pelas consequências de suas próprias características.
A exemplo do Lulismo, que, ao concentrar tamanhamente o poder em torno da figura mítica de Lula, condicionou o acesso aos espaços de poder aos seus, que ainda assim ficaram nublados por sua imagem. A consequência disso é a candidatura de um senhor de oitenta anos para um quarto mandato presidencial. Outra consequência, que eu adoraria que fosse investigada seriamente, é o surgimento de um enorme contingente de novas lideranças, que apareceram e se uniram em torno da figura (então claudicante) de Bolsonaro, porque era o espaço possível para existirem.
Da mesma forma, o Bolsonarismo, que há oito anos convivia com episódios de radicalização política e agressões praticadas por alguns de seus apoiadores contra adversários identificados simbolicamente com a esquerda, apresenta conflitos cada vez mais evidentes entre seus membros, a exemplo do que ocorre entre Nicolas Ferreira e Flávio Bolsonaro.
Obviamente, dadas as opções que se construíram para esta eleição, ainda se veem poucos espaços discursivos para além do que se convencionou chamar de polarização — mesmo que ambos os candidatos busquem, com maior ou menor eficiência, conduzir suas imagens para um “centro” ameno.
Mas o esvaecimento desses movimentos parece estar acontecendo. E é possível percebê-lo nos pequenos detalhes.
No início de junho foi noticiado que Michelle Bolsonaro pediu mais de setenta registros de uso da marca Bolsonaro junto ao INPI. O pedido foi feito em seu nome como pessoa física. É ela quem terá o direito sobre o uso econômico do nome Bolsonaro, ao menos para todos os produtos e serviços para os quais pediu propriedade.
O registro no INPI é fundamental para garantir, legalmente, que o fluxo de caixa (o dinheiro que pode ser gerado) oriundo de uma marca vá para o seu detentor. É assim com a Coca-Cola, é assim com os filmes da Netflix. Mas também é assim com todos os produtos que foram comercializados por Xuxa, Angélica, Eliana, Pelé e todas as personalidades que, em determinado momento de suas vidas, geraram tamanha comoção e identificação que se tornaram fenômenos de consumo de massa.
Os fãs dessas personalidades, assim como os fãs da banda É o Tchan, caracterizavam-se por vestir-se, dançar, cantar, brincar e consumir apaixonadamente aquilo que era proposto por seus ídolos. Da mesma forma como acontece com os movimentos políticos.
Só que movimentos políticos costumam explorar apoios políticos. Em torno da ligação com seus ídolos, parentes e agregados buscam se eleger. E, mesmo que em alguns momentos tenha existido um Brizola fazendo propaganda para sapatos Vulcabras, ou o PT vendendo broches com estrelinhas, ainda assim não se pode afirmar que os movimentos populistas tenham sido transformados, como fenômenos de cultura de massa, em ativos econômicos.
Isso até o registro de marcas solicitado por Michelle Bolsonaro.
A história acontece pela sua repetição, mas é registrada pelas suas mudanças. O acontecimento tão singelo quanto irônico da mulher que, no passado, foi usada pelo movimento para conquistar o apoio das famílias e dos evangélicos, e que agora se apropria do ativo econômico da marca Bolsonaro, talvez indique uma mudança considerável: os fenômenos populistas se profissionalizando tanto que podem vir a se burocratizar.
É pena que essa notícia tenha vindo na mesma semana em que um dos maiores pensadores do mundo, e pensadores da cultura de massa, Edgar Morin, tenha falecido. Menos mal que isso tenha acontecido com ele aos 104 anos, reconhecido e reverenciado em vida!
