A primeira imagem captada por Dante quando entrou no apartamento de Olívia e Aurora foi a combinação, pela cor, da poça com a flor. A poça era o sangue que fluiu do pulso de Olívia e a flor era uma rosa por sobre o peito de Aurora.
Era junho de 2066, e tão logo as imagens captadas por Dante apareceram em seu perfil na society, repercutiram quase imediatamente em quase todos os nichos. Desde o brilhante governo da presidente Kim Kardashian, o único acontecimento que costumava ter esse impacto era a final do reality onde o líder maior do país era escolhido.
Não era por menos. Desde 2048 nenhum crime passional havia ocorrido. Era um tipo de crime extinto, de tal forma que no Regulamento Compartilhado das Big Techs nem havia previsão para tal.
Não havia o porquê ele ocorrer!
Os crimes, de modo geral, haviam sido extintos. O mundo havia evoluído rapidamente para uma realidade que até então era considerada utópica. Começou em 2037, quando o movimento “Unowned Bodies” se uniu ao movimento “Everything Belongs to God” para criarem o movimento “Bodies Free in God”. O que surgiu foi a maior revolução antropológica da humanidade desde quando o cristianismo passou a condenar a poligamia e incentivar o casamento monogâmico. Mas a diferença é que a primeira mudança ocorreu entre os séculos IV e XII d.c, e agora havia sido questão de poucos meses.
O movimento que combatia o capitalismo denunciando que sua essência era o corpo humano ser transformado em propriedade privada através do casamento monogâmico, pregava que, pela natureza, as pessoas amariam e trocariam carinhos e intimidades com quem quer que desejassem (mutuamente). Ao aceitarem que esse amor poderia acontecer sob as bençãos sagradas, num ambiente que seria um grande jardim do éden, e aceitarem que os líderes religiosos seriam os emissários da verdade divina, tudo se transformou. No âmbito pessoal, a liberdade sexual com a validação suprema. No âmbito social, o retorno do poder absolutista, nas mãos de déspotas esclarecidos. O próprio capitalismo acabou.
Ou melhor, implodiu. Se concentrou tanto que todos os meios de produção foram assumidos por corporações capazes de entregar todos os bens, mercadorias, produtos e serviços que a humanidade precisava. Tudo entregue rapidamente, com qualidade e preços irrisórios. Havia robôs eficazes, graças IA suprema, que integrou tudo através do modo de vida estruturado pela Society.
No novo modo de existir, sem a necessidade de trabalho, não havia mais valia, não havia bases para a propriedade privada. Não havia mais conflitos de classes porque não havia mais patrões e empregados. Logo, não havia por que regular os corpos.
O papel de cada pessoa no novo modo de viver era colaborar com a coordenação mútua. E isso era feito através da atenção que cada um dava aos temas importantes da existência. Os robôs podiam administrar remédios, fazer cirurgias, organizar treinos e preparar academias de musculação. Mas era preciso que as pessoas fossem orientadas para saber como lidar com eles, e a cuidarem de sua saúde. Então, àqueles que tivessem talento para essa temática, dedicavam seu dia a mostrarem, falarem sobre, darem exemplos, de modo a influenciar os demais para que também agissem de tal forma.
Da mesma forma, qualquer outra temática: nutrição, saúde mental, civilidade, higiene pessoal, e claro, religiosidade – sempre considerando, claro, a relevância de quem falava desse último tema.
Com os recursos são finitos, e havia diferenças entre a qualidade dos serviços e bens que vinham, inclusive, do uso das estruturas seculares que eram hierarquizadas, nem todos consumiam igualmente. O que havia de novo é que a popularidade da influência é que determinava o acesso. O dinheiro também havia sido abandonado. O que dava condições de uma moradia melhor, um restaurante mais sofisticado, uma academia com melhor vista e localização era o quanto cada um era capaz de influenciar.
Aurora, por exemplo, era uma influenciadora sobre dieta e nutrição. Seu dia a dia era dedicado a lidar com escolhas saudáveis de alimentos e prática de exercícios. Na verdade, uma coisa muito parecida com o que na pré-história das redes sociais era chamado de influencer fitness.
Olívia, por sua vez, era o que no passado longínquo se chamaria de nerd, só que sem a conotação jocosa. Ela se dedicava a investigar as possibilidades de fabricação de novos alimentos. Seus conteúdos eram, inclusive, utilizados pela IA suprema para orientar os robôs a desenvolverem novas comidas.
Era por isso que, apesar de não haver mais casais monogâmicos, elas viviam como uma dupla, um casal.
Era sinérgico.
O conteúdo de cada pessoa era gerado e publicado imediatamente. As imagens e sons eram captados pela rede mundial de câmeras automáticas, e cada perfil era criado já no nascimento, com a implantação de um chip em cada indivíduo. Essa prática já havia começado em 2021, com a inoculação de chips chineses dentro da vacina contra a epidemia de Covid 19.
Aurora e Olívia, ao fazerem coisas juntas, contribuíam uma com o conteúdo da outra, e como apareciam em ambos os perfis, geravam mais engajamento. Com isso, tinham acesso a um padrão de consumo muito superior à média.
Isso incluía o apartamento nos Jardins.
Foi para lá que Dante se dirigiu, quando o protocolo que criou para que a IA suprema o informasse quando algum perfil deixasse de gerar conteúdo por mais tempo do que uma ida ao banheiro, ou de sono. Eram os únicos momentos em que os conteúdos não eram automaticamente gerados. E Dante criou o protocolo porque a temática que se dedicava eram acidentes.
No início de sua vida, Dante até quis se dedicar à fiscalização da vida alheia. Observar se as outras pessoas cumpriam as regras sociais era algo que substituiu a necessidade de policiamento, de justiça. E muita gente se dedicava à essa prática. Coisa milenar, que nos primórdios era chamado de fofoca.
Só que a concorrência era tanta que o engajamento era pouco. Dante percebeu que valia mais a pena tratar dos casos inusitados: os acidentes. Se os crimes eram evitados antes de acontecerem pela vigilância constante, não havia como impedir totalmente que coisas saíssem do controle, porque seres humanos são naturalmente falhos – de distraem, tomam decisões impulsivamente, erram.
A forma como ele havia sido exitoso em descobrir e solucionar uma série de acidentes – alguns com óbitos, o levou a ter um engajamento bom o suficiente para que a IA suprema aceitasse liberar a senha da porta do apartamento de Olivia e Aurora.
E apesar de ser especializado em atribuir causas e contextos de acidentes aos casos que se dedicava, a cena da poça de sangue combinando com uma rosa depositada por sobre um torço inerte, uma cena toda branca e vermelha rubra, despertou em si memórias milenares.
Antes mesmo de chegar perto e perceber as marcas roxas no pescoço de Aurora, e a marca de carne aberta no pulso de Olívia, sua intuição agiu duplamente. Primeiro, parecia um crime. Segundo, que era um crime passional.
Nem sabia direito de onde havia surgido esse termo em sua cabeça, mas assim que o falou, disparou a viralização do conteúdo e o mundo passou a acompanhá-lo.
E tão logo surgiu a viralização, também surgiu a pressão do sucesso e da responsabilidade.
Dante sabia que sua vida ganharia outra dimensão a partir daquele momento. Ele poderia ser um novo tipo de influenciador sobre acidentes. Ele poderia ser um tipo de influenciador criminal – ou pelo menos virar uma celebridade necessária à qualquer discussão sobre o inusitado retorno à criminalidade. Todas as portas se abririam para si.
Por outro lado, também sabia que precisava responder às perguntas que surgiam em 87 % dos comentários: Era um crime passional? E por que era um crime passional?
Agindo quase que automaticamente, usou as mesmas técnicas que praticava quando falava de acidentes, e passou a dissertar sobre as normas racionais que explicam o fenômeno. Um crime passional era algo praticado até a antiguidade recente, quando a propriedade privada condicionava as pessoas a acreditarem que detinham a posse do corpo de outra. Isso havia surgido porque ao formarem um casal monogâmico, havia também a junção de patrimônios. E com o passar do tempo, também o investimento emocional, no sentido de fantasias criadas à partir da monogamia, deu base à ideia de amor romântico: um sentimento onde a realização de um dependia da reciprocidade alheia. Um patrimônio ameaçado ou uma fantasia destruída desencadeavam desejos reprimidos e represados, em impulsos destrutivos. Matava-se o outro como quem quisesse destruir a realidade traidora.
Tal reflexão fez o mundo, ao vivo, buscar conferência na IA suprema, como no passado se fazia ao questionar informações (uma prática abandonada em meados de 2015, quando surgiu a pós-verdade). Mas ela confirmou, mesmo que parcialmente, o conceito.
Dante então passou a dissertar sobre a cena. Ao observar que no pescoço de Aurora havia marcas de dedos, e nas unhas de Olívia marcas de pele, pode afirmar que houve ali um esganamento. Algo que, por si só, já gerava conteúdo suficiente para alimentar dias de engajamento.
Mas ao observar que Olívia cortou o pulso e esperou que sua vida se esvaziasse junto com o sangue em seu corpo, e que não havia em Aurora marcas daquele sangue, havia indícios que sustentavam a hipótese de que Olivia primeiro a esganou, e depois se cortou para então morreu ao seu lado.
De repente, o nome do antigo autor inglês Willian Shakespeare disparou nos trend topic da Society.
O elemento final de que se tratava de um crime passional era a rosa. Uma rosa que não veio do nada. Já estava ali para tal. Era uma rosa solitária, provavelmente comprada anteriormente. E de fato, logo surgiu um vídeo que mostrava, num conteúdo de alguém que falava sobre cultivo de plantas, a imagem de uma Olívia triste pegando a flor em uma das bancas onde os robôs as distribuíam.
Era premeditado.
Faltava explicar o porquê!
Dante passou a revisar o conteúdo gerado pelas garotas. Era quase sempre o mesmo. Aurora falava com voz adocicada sobre cada tipo de alimento, e sobre como eliminar calorias, gorduras, açucares. No que era seguida por Olívia, que explicava como aqueles alimentos eram feitos, e dissertava ocasionalmente sobre novas possibilidades de criação de comidas igualmente desprovidas de gorduras, açucares e que pudessem manter algum resquício de sabor.
Foi um elemento que olhos treinados na leitura sobre saúde mental apontaram nos comentários da Society que levou Dante a imaginar um caminho investigativo: enquanto Aurora performava constante felicidade e empolgação, Olivia tinha pequenas reações estranhas toda vez que o comentário se referia à necessidade de manutenção de cardápio tão restrito, e quantidades tão insipientes. A magreza de uma a fazia feliz, mas a outra parecia ter na sua magreza um peso.
Num impulso, abriu a gaveta da mesa de cabeceira ao lado de Olívia e pegou seu smart watch. Os registros sobre sono apontavam insônia. Os registros de como Olivia alegava se sentir quando suas medições metabólicas apresentavam oscilações registravam angústia. Em um dos registros, em letras maiúsculas, Olivia havia registrado FOME.
Os registros eram quase sempre noturnos.
Olivia dormia com fome.
Olhando os registros retroativamente, dormia com fome há dois anos. Desde que passara a dividir a vida e a cama com Aurora.
Mas seria mais coerente, fosse o caso, que Olivia simplesmente abandonasse a companhia de Aurora, e seu estilo de vida fitness, a praticar a atrocidade que praticou. Ela poderia ter uma vida feliz e longa se juntando à outra influenciadora que se dedicasse à falar da delícia dos doces…
Dante estava já começando a pensar sobre o conteúdo que iria produzir alegando a impossibilidade de descobrir causas para crimes passionais, quando a urgência o levou ao banheiro.
Lá, encontrou, no chão, marcas de vômito.
Voltou à cama e aproximou seu rosto da boca de Aurora. Cheirou.
Abismado, consultou o volume de conteúdo praticado por ela nos últimos anos. Era intenso. Ela postava dezenas de conteúdos por dia. Muitos deles sem Olívia. Em todos eles, provava algo. Isso acontecia antes mesmo das duas se unirem.
Dante então compreendeu.
O sucesso de ambas se devia à magreza.
Para isso, precisavam pouco comer.
Essa era a explicação para o crime. Para pouco comer, ambas fizeram um pacto de restringir persistentemente a alimentação. Ambas apresentavam insistentemente o temor em ganhar peso. E ambas viviam a comentar o quanto poderiam ser mais felizes caso emagrecessem ainda mais.
Para Olivia, isso era uma angústia constante. Era o preço da anorexia.
Mas a anorexia era necessária para estar junto à sua companheira, que também a praticava.
Mas o vomito comprovava que a reciprocidade era um engodo. Enquanto uma era forçadamente anoréxica, a outra era bulímica.
Esse crime passional foi o grande assunto daquele ano de dois mil e sessenta e seis.
