O preconceito é o elemento que leva alguém a tomar uma atitude ou comportamento diferenciado em relação a outra pessoa apenas por classificá-la dentro de uma categoria específica de ser.
Essa é a frase que me guia há muito tempo para me autoanalisar e me desconstruir diante dos inúmeros preconceitos que me atravessaram durante a vida. O século XX foi pródigo em quebrar o rigor da aristocracia e jogar luz sobre todas as pessoas — não apenas sobre os aristocratas —, mas também foi extremamente eficaz em carregar de estereótipos todas as caixinhas nas quais passaram a ser colocadas as pessoas visibilizadas.
Essa frase sempre me foi muito útil. Até eficaz, eu diria. Ou melhor: eu dizia!
Dizia por que um acontecimento corriqueiro questionou sua aplicabilidade.
Explico.
Juliana, Kati e eu passeávamos no final da tarde pelo entorno da Praça Nossa Senhora da Paz, em Ipanema. Não era um passeio qualquer. Era o passeio de três amigos que se conheceram adolescentes e acompanharam, torcendo e celebrando, os bons e os maus momentos uns dos outros por mais de três décadas. Era a primeira viagem feita apenas por nós três. Um passeio por um lugar que, na adolescência, sequer ousaríamos sonhar conhecer daquela maneira.
Entretidos com as bobagens que os adolescentes em nós ainda diziam sobre o que nossas versões adultas fizeram nesse tempo todo, seguíamos felizes, com nossas roupas absolutamente modestas, nossas sacolas com bugigangas de casa e nossa alegria pelo reencontro. Completamente descompassados do glamour do lugar, mas absolutamente radiantes entre nós.
Foi quando Juliana riu e me olhou meio cúmplice, confabulando:
— Não é possível!
— O que não é possível?
— Você não viu?
— Não. O quê?
— Aquela “bichinha” que vinha com a outra te olhou de cima abaixo, fez um bico de desdém, empinou o nariz e virou o rosto.
Ela riu novamente, misturando raiva em minha defesa com deboche, e prosseguiu:
— Parecia uma gazela querendo disputar espaço com você…
Ela riu, e complementou:
– Deve ter pensado que você iria tirar lhe tirar o trono!
Ri com ela. Disse que aquele era um lugar onde esse tipo de situação talvez fosse mais comum, dados os pesados padrões impostos — ou aceitos — por parte da comunidade. Tergiversamos, mudamos de assunto e seguimos nossos momentos felizes.
Mas uma pulga ficou atrás da minha orelha.
Havia algo de homofóbico naquela situação. Porém, a postura de defesa da minha amiga para comigo, o amor reconhecido que temos um pelo outro e o fato de ela morar em Lisboa, onde alguns de seus melhores e mais constantes amigos são gays, depunham fortemente a seu favor. Ela não é homofóbica.
Na verdade, é fácil reconhecer a homofobia em suas manifestações mais graves. Quando alguém é assassinado por ser gay. Quando alguém é espancado por ser gay. Ou melhor: quando alguém é espancado por ser percebido como gay, como no caso do pai e do filho agredidos por andarem abraçados em São João da Boa Vista, em 2011. Situações assim a comunidade se une, em sua maioria, em concordância.
Nem sempre foi assim. Até poucas décadas atrás, a homossexualidade era um tabu tão grande que muitas vezes sequer era nomeada. Dois homens pegos juntos eram vistos como pederastas — uma espécie de delinquência, um delito. Durante décadas, a homossexualidade ainda foi frequentemente tratada como patologia sob o rótulo de “homossexualismo”. Ser gay naquela época era viver permanentemente sob risco — a menos que se habitasse alguma bolha privilegiada, obviamente.
No Mato Grosso em que cresci, o tabu era tamanho que eu mesmo não tinha certeza da minha própria sexualidade. Eu a escondia primeiro em paixões platônicas por mulheres; depois, em paixões proibidas com outras pessoas igualmente temerosas.
Em certa ocasião, muito triste pelo fracasso de um primeiro amor, uma moça que eu considerava uma grande amiga me convenceu a me abrir. Fragilizado, falei de mim. Meses depois, ela usava aquela informação para me chantagear.
Contado e observado pela perspectiva de hoje, aquilo era homofobia.
Na época, era apenas alguém que, num retorno à moral, negociava com um depravado um alívio às culpas. A sociedade lhe daria razão.
A homofobia, naquele tempo, era o medo de ser discriminado por ser gay. Era o medo de não conseguir entrar no mercado de trabalho, de participar de eventos sociais, de ser amado. Muita gente se afastou de mim conforme foi descobrindo minha sexualidade. Muita gente que me amou abriu mão de um relacionamento comigo para buscá-lo com uma mulher.
Para vencer a homofobia era preciso se esconder, se invisibilizar. Talvez por isso minha amiga Juliana não tenha, daquela época em que já éramos amigos amorosos, lembranças das situações de discriminação que vivi.
Eu — e todos que amam como eu — devemos certa gratidão a Jean Wyllys. Não porque ele tenha sido um Moisés do movimento gay, dividindo o mar de preconceitos, mas porque, ao afirmar tão tranquilamente que o motivo de ter sido tão votado ao paredão do BBB era o preconceito por ser gay, ajudou a obrigar a sociedade brasileira a lidar com a questão.
E o conceito de homofobia começou a mudar.
Uma definição anedótica me foi dada por um colega com quem dividia apartamento quando fazíamos mestrado na UFRJ. Indignado pela vitória de Jean no programa, ele esbravejava para outro colega as incongruências que enxergava naquilo, afirmando que o vencedor havia se feito de vítima. Incentivado pela vitória dele, enfrentei-o, dizendo que Jean era, sim, vítima de preconceito, e que a postura dele parecia homofobia.
Foi quando ele respondeu:
— Homofobia? Homofobia é o pavor que o cidadão de bem sente em acordar pela manhã com um barbado ao seu lado na cama.
A resposta exemplifica bem como o tema passou a ser tratado gradativamente a partir dali. Algumas correntes da psicologia passaram a defender a hipótese de que parte da homofobia poderia se originar no íntimo de indivíduos que entravam em conflito ao reconhecer em si afetos por pessoas do mesmo gênero.
O caminho, em termos de políticas públicas, era reconhecer que não havia nada de errado com a sexualidade em si, mas sim com a discriminação contra ela. Sendo uma questão de âmbito privado, a definição de cidadania não deveria passar pela forma como alguém consegue amar.
À psicologia caberia amparar pessoas gays para enfrentar o preconceito ainda existente, em vez de buscar formas de adequá-las à heterossexualidade.
Foi uma batalha complicada, marcada também pela resistência de setores religiosos dentro da psicologia.
Aos poucos, porém, a questão foi ganhando materialidade no ordenamento jurídico. Primeiro veio o reconhecimento da união estável homoafetiva, em 2011, e o casamento civil homoafetivo, em 2013. Depois vieram direitos previdenciários, adoção, retificação de nome e gênero — já dentro do combate à transfobia, algo diferente da homofobia — e, finalmente, a criminalização da homofobia, em 2019.
Foi essa última questão que me intrigou a ponto de questionar se a frase que utilizo ainda é capaz de ajudar a compreender os preconceitos e orientar decisões éticas.
Ela não surgiu do acaso. Veio de um estudo sobre gestão internacional baseado em um autor que fala sobre dimensões culturais. Ao explicar que o índice de feminilidade ou masculinidade de uma sociedade pode ser percebido pela forma como ela estabelece diferenças entre os papéis masculinos e femininos, ele me ajudou a compreender que é a diferenciação dos direitos de existência que cria as bases dos preconceitos.
Sim, porque é machismo achar que mulher deve ficar em casa e homem deve pagar a conta. Não porque trabalhar em casa ou pagar a conta tenham algo de errado, mas porque é equivocado presumir que uma divisão de papéis precise ser determinada pelo gênero.
Tão equivocado quanto imaginar que os papéis precisem ser rigidamente invertidos ou igualmente distribuídos. O ideal talvez fosse que cada conjunto de pessoas pudesse estabelecer suas próprias regras de convivência, todos em igualdade de voz, opinião e negociação.
Isso vale para diferenças de tonalidade de pele, religião, naturalidade, cultura, identidade de gênero e sexualidade.
Mas esse ideal ainda está longe de ser alcançado. E por isso continuam sendo necessárias leis de proteção e políticas públicas de apoio às minorias.
Ainda assim, o horizonte continua sendo a igualdade.
E a igualdade se origina na própria existência humana: no reconhecimento de cada indivíduo como alguém dotado de dignidade e subjetividade próprias.
Então, minha amiga dizer que gays parecem competir entre si, como animais estereotipados, não deveria necessariamente ser entendido como homofobia, porque era uma manifestação subjetiva da forma como ela interpretou e ilustrou o desprezo gratuito daquele indivíduo. E o fazia em minha defesa.
Só que, em inúmeros contextos, isso seria visto como homofobia. Mais do que isso: dependendo de quem recebesse essa mensagem, a Justiça poderia ser acionada — afinal, a homofobia é crime.
Mas a Justiça precisa de algum grau de objetividade para julgar. Seria necessário demonstrar que determinada conduta buscava discriminar, inferiorizar ou excluir alguém em razão de sua orientação sexual ou identidade de gênero.
Na verdade, seria até mais fácil afirmar que quem agiu com intenção discriminatória foi o rapaz que performou um gesto de desaprovação tão vistoso e eloquente a ponto de incomodar minha amiga, que até então estava distraída.
Isso torna tudo mais difícil.
Afinal, se a origem do preconceito é a estigmatização de um grupo, então talvez seja homofobia um gay imaginar que outro gay irá disputar espaço com ele. E talvez também seja etarismo imaginar que ele perderia essa disputa por ser mais velho e possuir menos tônus muscular.
Incluam seus risos aqui.
Um possível teste mental seria perguntar: é fácil imaginar um homem heterossexual mais jovem olhando outro homem mais velho de cima abaixo, fazendo um gesto de desaprovação seguido de uma virada egípcia de rosto?
Provavelmente não.
E, se lhe parecer perfeitamente natural imaginar uma mulher mais jovem fazendo isso com outra mais velha, talvez exista aí algum machismo internalizado.
Então, muito do que se faz e se reproduz dentro das próprias comunidades acaba sendo estereotipado de maneiras que desconsideram a integridade subjetiva das pessoas. Muitas vezes, preconceitos passam a ser usados como armas para ferir quem incomoda.
Testemunhei isso quando um amigo jovem foi questionado em uma balada por dançar “como se fosse hétero” três vezes na mesma noite. Também vi outro amigo se sentir intimidado a frequentar determinados ambientes porque lhe cobravam roupas diferentes das que gostava de usar.
Vi ainda, com tristeza, alguns grupos naturalizarem o consumo de drogas em determinados ambientes festivos associados à comunidade gay.
Mas, a bem da verdade, comportamentos escrotos estão impregnados na sociedade como um todo.
Em diferentes contextos existem pessoas tentando impor às demais os comportamentos que consideram adequados para si — seja na igreja, seja em uma torcida de futebol, seja em nas escolas. Existe toda uma indústria produzindo mensagens explícitas e subjetivas sobre moda, aparência e pertencimento. E drogas continuam sendo um problema que afeta heterossexuais e homossexuais, ricos e pobres, brancos, negros e pessoas de todas as origens.
Considerando a complexidade de uma discussão em que o conceito de homofobia precisa ser objetivo o suficiente para proteger pessoas, mas que não deve se transformar em arma para destruir qualquer divergência humana, talvez eu não possa afirmar que a frase que abre esta crônica esteja completamente correta.
Talvez seja mais prudente reconhecer que ainda precisamos aprimorar o conceito. Um espaço onde a academia pode colaborar.
Ainda assim, continuo ficando com ela.
Porque a frase ao menos me ajuda a identificar comportamentos escrotos.
E talvez o escroto seja a única pessoa que realmente mereça alguma forma de rejeição.
