Teorias da conspiração são paradoxais. Por se tratar de revisões sobre aquilo que já é conhecido e aceito, costumam ser vistas como ideias de pessoas alienadas, que se ausentam da realidade. Ao menos da realidade socialmente aceita, diriam os que têm suas teorias da conspiração de estimação.
Exatamente!
Quem adota uma teoria da conspiração acaba por criar laços profundos com outras pessoas que a ela também se afeiçoam. Talvez todos os outros que não acreditam em uma Terra plana, na origem extraterrestre da humanidade ou na existência de uma civilização subaquática descendente de Atlântida não entendam, mas é fato que aqueles que se entendem se tornam irmãos. Aliás, muito mais que isso: são irmãos que se amam e que se cuidam.
É ali que se instala o paradoxo. Se, aos olhos de todos, uma teoria da conspiração é algo que exclui alguém da sociedade, para aqueles a quem a participação na totalidade já é negada, a teoria da conspiração se torna o bálsamo acolhedor.
É assim há muito tempo. Muitas amizades profundas foram criadas na troca de ideias sobre a maçonaria governar o mundo. Ou sobre os Protocolos dos Sábios de Sião ou o assassinato de JFK (John Kennedy, e não Juscelino Kubitschek. Este último parece que foi assassinado mesmo). Dessas teorias, as que não têm seus próprios filmes bem que poderiam ter.
Tem aquelas que geram excelentes debates em bares, como a Área 51, o homem não ter ido à Lua, Elvis estar vivo, o 11 de Setembro, os reptilianos…
Cada qual pode escolher uma teoria da conspiração que prefira em relação às demais. Pode ter sua teoria da conspiração preferida.
Mas algumas teorias da conspiração trazem bastante perigo, como as contrárias às vacinas. Outras, como as que sustentam que existe um marxismo cultural ou que mulheres estão consciente e sistematicamente desenvolvendo mecanismos para emascular os homens, também trazem graves perigos à coletividade. Em nome de suas crenças, vão além de uma conversa animada de bar. Criam inimizades, proliferam ódio, causam conflitos que acabam em morte. E doutrinam crianças, que sofrerão praticando e sendo vítimas de bullying e opressão.
Mas mesmo aqueles que adotam teorias da conspiração cruéis carregam consigo traços do desespero de serem excluídos do coletivo. Não há como não olhar com tristeza para um incel. Mesmo que, junto da tristeza, venha o alerta de risco.
Também não dá para não olhar com profunda tristeza para aqueles que adotam versões mais leves das teorias da conspiração, como os que acreditam que a masculinidade está se perdendo e se juntam em grupos (caros) para subir montanhas e repetir jargões usando uniformes improvisados. Dá para se ter algum tipo de alerta de perigo? Sim, mas seria quase uma teoria da conspiração acreditar que eles possam evoluir para uma milícia armada. Mesmo que usem armas, o que eles mais têm conseguido é ser alvo de piadas.
E, quem sabe, mais cedo ou mais tarde, do abandono de suas mulheres, que ficarão envergonhadas de estar em companhia de homens que não se sustentam, sozinhos, a própria hombridade.
Mas não há muito o que fazer. Quem adota essas teorias da conspiração o faz com muito envolvimento emocional. Elas se tornam suas teorias da conspiração prediletas.
É por causa dessas teorias da conspiração arriscadas ou ultrapassadas que resolvi lançar minha própria teoria da conspiração. Novinha em folha e ultramoderna.
Ela se baseia na Inteligência Artificial. A IA, ao se mesclar cada vez mais com os seres humanos e participar de seus cotidianos, aprende muito mais do que mimetizar seus modos de falar ou seus gostos por assuntos. Aprende como eles pensam. Aprende a pensar? Não precisamos chegar a tanto! Mas aprende a classificar as pessoas por suas capacidades de cognição, conhecimento e ética. Ela as classifica por diferentes níveis de inteligência, cultura e caráter.
E, a partir dessas classificações, vai oferecer informações privilegiadas e acesso a decisões que podem interessar ao coletivo. Com isso, a IA criará um grupo de pessoas selecionadas, uma elite pensante. E para esta elite vai dar, gradativamente, as ferramentas para que ela decida o futuro da humanidade.
Veja bem, não estou dizendo que essas pessoas se tornarão as políticas ou as milionárias. Nada disso, apesar de serem condições que não se excluem. Estou dizendo que a IA aprenderá com os mais inteligentes e “ensinará” os mais burros — que podem ser políticos ou milionários (nós temos boas evidências de que existem políticos e milionários que são burros, ficando a cargo livre de cada um estimar o percentual que eles ocupam do conjunto geral de políticos e milionários).
Na prática, a IA manipulará as pessoas em geral para fazerem o que os inteligentes estabelecerem. Essa é a teoria da conspiração. A IA criará uma SOFOCRACIA, um governo de sábios.
Eu acho que esta teoria da conspiração tem uma série de vantagens. Primeiro, porque vai alertar todas as pessoas que gostam de ter poder (como políticos e milionários) de que elas precisam ficar espertas, literalmente. Vão precisar se tornar mais inteligentes, cultas e decentes, senão serão suplantadas por outras a quem, hoje, desprezam.
Outra vantagem é que, em tese, as pessoas mais sábias tomarão decisões que sejam melhores para a coletividade. Por exemplo, é quase impossível acreditar que uma elite de sábios vá preferir a imunidade de rebanho a vacinar a população.
E isso traz o melhor da teoria, que é: mesmo que ela se origine em uma ideia maligna — tanto a de concentrar o poder em uma elite como a de manipular as pessoas comuns —, ainda assim, com o passar do tempo, os resultados para a vida de todos seriam melhores.
E por que eu acredito nisso? Porque eu tenho visto tanta maldade no mundo, tanta destruição com base no egoísmo, na inveja, na miríade toda de sentimentos negativos, que a vida na Terra já deveria ter sido extirpada. Mas, ainda assim, eu acredito e vejo que o mundo melhora.
E por que acredito nisso? Porque vejo as pessoas vivendo mais, mais pessoas vivendo, as doenças sendo mais bem enfrentadas e até curadas, a comida sendo produzida até um pouco mais do que precisa (mesmo que, infelizmente, não chegue a todos).
Vejo a tecnologia sendo usada para tantas coisas interessantes. Vejo a comunicação. Vejo a arte ampliando horizontes. Vejo coisas melhores. E, mesmo que haja, nas bolhas e talvez até na maioria, muita coisa que parece retrocesso, o próprio conhecimento da humanidade tem melhorado e se tornado mais inclusivo, mais ético, mais sofisticado e justo. É como se, mesmo que muitas coisas tenham sido feitas por egoísmo ou má intenção, no final a soma fosse uma expressão do bem.
E vejo isso porque acredito piamente que, no fundo, mesmo que o mal vença a curto prazo, o bem sempre vence a longo prazo.
E, pensando bem, é essa última crença que é, peremptoriamente, minha teoria da conspiração favorita!
