“Eu não consigo compreender como alguém como esse sujeito vota deste jeito e ainda por cima ouve essa música.” Foi esta a frase que chamou a atenção de Cássio. Contrastava com a tranquilidade de uma manhã de domingo em que as pessoas aproveitavam o sol que aquecia o frio deixado pela madrugada, passeando com afetos, filhos e cachorros. Quem falou, aliás, estava acompanhado.
A indignação se dirigia ao motorista de um sedã, modelo popular da década passada, que aproveitou a manhã ensolarada para passear com o volume do carro elevado ao ponto de compartilhar seu gosto musical. E o verso que soou era algo como “… e o Bolsonaro se casou com a Cinderela”. Na hora, Cássio pensou na ironia do papel que a esposa, a tal princesa, desempenha na atual campanha, bastante distinto daquele do verso, em que lhe cabia apenas ser bonita.
E, se a frase despertou interesse, também foi intrigante porque não era a primeira vez. Reconhecia nela várias outras que, distintas nas palavras, se assemelhavam no questionamento sobre pessoas que, não tendo posses, votariam em um candidato que defenderia um discurso elitista. Era como se desconhecessem ou negassem a própria pobreza. “É um pobre de direita, não entendo!”
Como cientista matemático, Cássio tinha uma visão muito peculiar sobre a vida: há uma verdade. E, sobre ela, há certezas. Então, se havia um pobre de direita, um motivo haveria de existir.
E, para fazer justiça, lembrou-se dos inúmeros discursos que ouvira em sua vida, defendendo que a riqueza seria fruto do trabalho, da persistência e da genialidade — não exatamente na mesma intensidade nem na mesma ordem, variando de acordo com o contexto de quem proferia a mensagem.
Quando chegou em casa, deu um beijo na esposa e lhe entregou as compras que ela lhe pedira algumas horas antes. Nem prestou atenção se ela reclamou que algo faltava. A ele, naquele momento, só interessava criar o modelo matemático que explicaria os processos de decisão política das pessoas.
Sentou-se na varanda com papéis, lápis, canetas, calculadora e notebook. Faria isso por puro deleite, pelo prazer da descoberta. Mas, se ganhasse algum prêmio Nobel no caminho, isso não seria nada mal.
Começou pelo mais óbvio. Se uma pessoa escolhia entre dois candidatos, haveria um conjunto de variáveis que tornava uma das escolhas mais racional do que a outra. Renda, escolaridade, idade, gênero, profissão, religião, lugar onde morava, patrimônio, expectativas para o futuro, experiências passadas. Cada uma delas poderia ser representada por um vetor: teria uma intensidade e uma orientação. Algumas empurrariam a decisão para um lado; outras, para o outro. A escolha seria o resultado da relação entre todas elas.
Cássio gostou da ideia. Desenhou algumas setas no papel e, ao lado delas, começou a escrever letras. A renda poderia determinar o quanto alguém se beneficiaria de uma redução de impostos ou de um programa social. A profissão poderia alterar sua percepção sobre direitos trabalhistas, regulamentações ou empreendedorismo. A escolaridade modificaria o acesso a determinadas informações. A idade alteraria o peso atribuído ao presente e ao futuro. O lugar onde a pessoa vivia mudaria sua percepção sobre violência, transporte, saúde ou emprego. Havia ainda raça, gênero, estrutura familiar, patrimônio, experiências com serviços públicos e uma infinidade de outras coisas que, combinadas, fariam uma decisão parecer mais ou menos razoável.
A religião lhe deu algum trabalho. Não bastava escrever “religião” e atribuir-lhe um número. Um católico, um espírita, um evangélico e um ateu poderiam perceber de maneira diferente questões que considerassem morais. Mas dois evangélicos também poderiam frequentar igrejas distintas, ouvir pastores diferentes e interpretar de formas opostas a mesma passagem da Bíblia. Mesmo dentro da mesma igreja, um fiel que participava de três cultos por semana provavelmente receberia influência diferente daquele que aparecia apenas no Natal, se evangélicos comemorassem Natal — Cássio anotou que precisava verificar isso depois. A variável religião, portanto, precisava conter orientação, intensidade e talvez alguma medida de alinhamento entre aquilo que a igreja pregava e aquilo em que o fiel efetivamente acreditava.
Com a renda não foi mais fácil. Duas pessoas que ganhavam cinco mil reais não necessariamente tinham cinco mil reais. Uma poderia morar sozinha num imóvel herdado, enquanto a outra sustentava três filhos e pagava aluguel. Havia patrimônio, dívidas, estabilidade do emprego, expectativa de ascensão, medo de empobrecimento e até a renda das pessoas com quem cada uma se comparava. Um sujeito que ganhava dez mil entre pessoas que ganhavam três podia sentir-se rico. Outro, ganhando os mesmos dez mil entre pessoas que ganhavam cinquenta, poderia passar a vida convencido de que era pobre. Cássio criou então uma variável para renda objetiva, outra para renda disponível e uma terceira para a percepção subjetiva da própria posição econômica.
O primeiro modelo ficou bonito. Mas precisava de mais atenção em várias variáveis. Acrescentou os insights, e o segundo modelo ficou melhor. Porém, ainda incompleto. No décimo primeiro, já não cabia numa folha de papel.
Toda vez que Cássio testava uma situação hipotética e encontrava uma escolha que lhe parecia absurda, descobria uma variável que havia esquecido. Acrescentava-a. Quando percebia que duas pessoas submetidas aparentemente às mesmas condições poderiam reagir de maneira diferente, dividia uma variável em duas. Depois, em três. Criou graus de detalhamento para que algumas pessoas considerassem certos elementos com maior precisão e outras simplesmente os ignorassem.
Enquanto desenvolvia cada modelo, tudo parecia fazer sentido. Mas, quando olhava mais atentamente, faltava algo a tal ponto que parecia que tudo desmoronava.
Em determinados casos, as equações tornavam-se tão grandes que Cássio precisava deslocar partes delas para outras páginas. Uma variável interferia na intensidade de outra, que modificava uma terceira, que, por sua vez, alterava a primeira. O modelo começava a adquirir uma beleza assustadora. Era possível imaginar uma máquina calculando aquilo. O problema era imaginar uma pessoa fazendo o mesmo.
Por volta das duas da tarde, sua esposa apareceu na varanda.
— Você não vem almoçar?
Cássio olhou o relógio como quem descobria uma informação científica.
Foi.
À mesa, ouviu histórias que não acompanhou, respondeu duas vezes a uma pergunta que ninguém havia feito e recebeu uma reclamação por ter esquecido justamente o que a esposa mais precisava nas compras daquela manhã. Depois tentou assistir à televisão com a família, cochilou no sofá e, no final da tarde, levou o cachorro para passear. Na segunda-feira, voltou ao trabalho. Vieram reuniões, alunos, mensagens, compromissos e problemas que, ao contrário de suas equações, exigiam soluções antes de serem completamente compreendidos.
Mas a fórmula latejava em sua mente.
Nos dias seguintes, começou a procurar respostas em livros e artigos. Descobriu que talvez tivesse cometido um erro ao imaginar que as pessoas examinassem cada informação separadamente. O cérebro agrupava coisas. Várias informações podiam formar uma unidade: experiências, lembranças, conhecimentos e associações eram comprimidos em conjuntos que passavam a funcionar como uma única premissa. “Meu patrão é um explorador”, por exemplo, poderia conter anos de salários, humilhações, horas extras, conversas com colegas e expectativas frustradas. Tudo isso já não precisava ser reprocessado a cada decisão. Transformava-se numa espécie de pacote mental.
Isso resolvia parte do problema. Havia limites para a quantidade de unidades que uma pessoa conseguia manter simultaneamente sob atenção, ainda que cada uma pudesse carregar dentro de si uma quantidade enorme de informações. Cássio abandonou a ideia de contar variáveis como quem conta feijões. O importante seria compreender como elas se agrupavam e se transformavam em premissas maiores.
Outra leitura lhe trouxe uma solução ainda melhor. Talvez estivesse errado ao exigir do ser humano uma racionalidade perfeita. Ninguém possuía todas as informações disponíveis, tempo infinito para analisá-las e capacidade ilimitada de cálculo. As pessoas decidiam com aquilo a que tinham acesso, com aquilo que conseguiam compreender e com o tempo que tinham para decidir. A racionalidade não desaparecia por causa disso. Apenas passava a existir dentro de limites.
Cássio quase não dormiu naquela noite.
Nas semanas seguintes, refez o modelo inteiro. Criou premissas primárias, que poderiam se combinar em premissas secundárias, que, por sua vez, alimentariam premissas terciárias. Os testes começaram a produzir resultados surpreendentemente coerentes. Quando abastecia o sistema com dados hipotéticos suficientemente detalhados, a decisão final parecia racional — não necessariamente correta, boa ou moral, mas racional em relação às premissas disponíveis para aquela pessoa.
Ainda havia um problema.
Duas pessoas podiam chegar à mesma conclusão com graus completamente diferentes de convicção. Uma dizia que votaria em determinado candidato como quem escolhia entre duas marcas de sabão em pó. Outra defenderia o mesmo candidato numa ceia de Natal contra quinze parentes, três amigos e um cunhado bêbado.
Cássio voltou às equações.
Percebeu que cada conclusão intermediária carregava consigo uma espécie de probabilidade. Não bastava concluir que determinada política melhoraria sua vida; era preciso considerar o quanto se acreditava nessa conclusão. Uma premissa secundária construída sobre conclusões frágeis teria uma força diferente daquela construída sobre certezas. Ao se propagarem pelas etapas seguintes do raciocínio, essas probabilidades deixavam resíduos, reforçavam algumas relações e enfraqueciam outras.
Uma forma criativa e eficiente de calcular convicção.
Ou quase, porque faltava alguma coisa.
Havia uma diferença pequena, às vezes insignificante, entre o resultado previsto pelas premissas que Cássio conseguia identificar e aquele que efetivamente aparecia no modelo. Uma força sem nome. Não era exatamente uma nova informação, porque parecia resultar das próprias informações. Também não era erro. Era como se o processo de organizar as premissas produzisse uma premissa adicional, invisível para quem a utilizava, mas capaz de alterar a orientação de todo o conjunto.
Cássio ficou olhando para o espaço vazio da equação onde precisava colocar alguma coisa.
Batizou-a de Premissa Varpi. Era poético usar algo como uma letra grega pouco conhecida para retratar uma função que derivava, veja só, exatamente daquilo que as pessoas não conseguiam processar em relação às dúvidas e certezas que tinham sobre as coisas.
Varpi seria a premissa desconhecida: uma sentença que já tinha significado, mas ainda não tinha palavras. Cássio não precisava descobri-las. Para sua fórmula, bastava atribuir à sentença um valor, estimado a partir do resíduo entre o que as demais premissas permitiam prever e o resultado final.
O modelo ficou pronto!
E nele havia lógica para o “pobre de direita”. E para a “esquerda-caviar”. E para vários outros estereótipos que pudessem existir em torno dos alinhamentos políticos ou ideológicos. Felicidade!
Cássio o apresentou primeiro aos colegas. Depois, aos alunos. Alguns fizeram perguntas, outros sugeriram alterações, dois pediram que ele enviasse o artigo assim que estivesse terminado. Um professor lhe disse que havia ali algo realmente interessante. Um aluno perguntou se aquilo poderia ser usado para prever eleições.
Cássio respondeu que ainda era cedo.
Mas sorriu.
Preparou a melhor apresentação que já havia feito. Depois, melhorou. Procurou congressos. Imaginou perguntas difíceis e preparou respostas para elas. Quando foi aceito, sentiu que venceu!
Conseguiu ir além do que imaginava. Possuía um sistema que, abastecido com as variáveis, previa a decisão do eleitor. E, de quebra, explicava a escolha.
Mas pagou um considerável custo por isso. Além do enorme esforço no desenvolvimento das fórmulas, na pesquisa e na engenharia dos cálculos e do sistema, também precisou mergulhar fundo nos argumentos políticos de cada polo ideológico. Assuntos polêmicos, viscerais, carregados de ódio, medo e outras tensões. Tantas, que suas costas petrificaram. Seu pescoço doía sem parar.
A esposa disse que ele precisava descansar. Tomou um anti-inflamatório. Nada adiantou.
Um colega sugeriu uma massagem, algo milagroso.
Foi assim que Cássio terminou, num sábado à tarde, na sala de espera de um massagista holístico. Foi pela massagem. Não pela filosofia, fique claro.
Enquanto esperava, começou a conversar com um homem sentado ao seu lado. Cássio nunca soube exatamente como chegaram ao assunto, mas, em algum momento, contou que havia desenvolvido um modelo para explicar decisões políticas.
— Explicar como?
Cássio explicou.
O homem se interessou. Fez algumas perguntas, quis saber como funcionavam as variáveis, perguntou sobre a Premissa Varpi e, depois de alguns minutos, apontou discretamente para as outras pessoas que aguardavam atendimento.
— Dá para testar?
Cássio achou graça.
Dava.
Com a concordância dos demais, fizeram uma brincadeira. Cássio fez perguntas, inseriu informações no modelo e apresentou algumas conclusões.
Na primeira pessoa, funcionou.
Na segunda também.
Na terceira, Cássio já estava bastante satisfeito consigo mesmo.
Até que resolveu explicar como havia chegado aos resultados.
A primeira pessoa discordou. Reclamou que havia algo errado. Cássio conferiu os dados, e tudo batia, menos aquela discordância. Os demais também se interessaram e, ao rebaterem as explicações dadas por Cássio, acabavam provocando os outros na sala que votavam no candidato adversário. A sala de espera da massagem tornou-se uma panela de pressão.
Cássio começou a tentar incluir no modelo variáveis que iam surgindo conforme as pessoas discutiam. Mas simplesmente não dava tempo. Quanto mais explicava as premissas que haviam produzido o resultado, mais informações surgiam. Algumas reforçavam a conclusão. Outras a enfraqueciam. Havia ainda aquelas que pareciam modificar completamente o peso das anteriores.
Recalculava, mas não batia.
O pescoço começou a latejar. Aquela sala de espera era a antessala do inferno. Se a situação era assim ali, imaginou como seria quando apresentasse o modelo no congresso. Sua carreira estaria destruída. Começou a suar frio.
O homem ao seu lado, que até então participava da discussão política, reparou. Perguntou se estava bem.
— Não tem como estar. Eu estou perdido. Meu modelo não funciona.
— Como não funciona? Funcionou tanto que gerou essa confusão toda!
— Aí é que está. Se o modelo funcionasse, todo mundo deveria ter se acalmado. Deveriam até ficar amigos. Mas, do jeito que a coisa está acontecendo, até parece que…
— Parece o quê?
— Parece que cada um aqui ou é deficiente cognitivo ou é mau-caráter. Só isso explica a falta de lógica.
Um instante de silêncio. Ao menos entre os dois.
— É que talvez você não tenha levado em consideração todas as premissas.
— Como não? Eu praticamente abasteci o modelo em tempo real.
— Talvez tenha faltado a sua…
— A minha?
— Pelo jeito, a sua Varpi é acreditar que uma vida caiba em uma planilha de dados.
