O ringue está montado. A luta está pronta para recomeçar. Ela se repete sempre que a plateia se organiza para torcer e incentivar.

De um lado, medindo seis caracteres e tendo feito suas primeiras apresentações no latim antigo há aproximadamente dois mil e duzentos anos. Primeiramente, referindo-se à condição legal que se atribui a alguém que tem o direito de receber uma recompensa. Mais tarde, evoluindo para uma conotação moral: a dignidade de quem merece recebê-la. Com história e experiência, Mérito entra pela multidão causando comoção. Mesmo quem não veio para torcer por si sente, por ela, um certo carinho.

Do outro lado, a desafiante, medindo doze caracteres e trazendo consigo o vigor de quem foi criada em 1958, a Meritocracia. Ela chega trazendo consigo a ambiguidade, uma vez que surgiu como uma crítica satírica às expectativas criadas em torno da própria Mérito.

Conforme anda em meio à multidão, provoca alvoroço. De um lado, aqueles que vieram por ela torcer, com gritos tão efusivos e eloquentes em sua defesa, que não é exagero dizer que os olhos de seus defensores arregalam-se e avermelham-se de cólera coletivamente.

Uma paixão que não é menor na torcida oposta. Seus detratores apertam os olhos, dispostos a trucidar ou, ao menos, cancelar qualquer pessoa que ousar pronunciá-la sem que junto não traga qualquer esclarecimento que condene a palavra tão odiada!

Sem sombra de dúvidas, duas palavras carismáticas!

Em jogo está o direito de significar “merecimento – o direito de merecer”! Um cinturão que por muito tempo passou despercebido, pouco comentado, mas que, nos tempos de modernidade líquida, ganhou muita importância, porque implica no quanto cada um pode se sentir à vontade para consumir, ou criticar o outro pelo consumo daquele.

O juiz escolhido para essa luta é um escritor, que é vaiado por ambos os lados das arquibancadas. Cada qual atribui ao juiz a inclinação ao lado oposto, uma vez que isenções em relação a essas palavras não são aceitas em hipótese alguma.

Ele verifica se ambas estão aptas a serem pronunciadas e utilizadas nos contextos que podem vir a surgir durante a luta e dá o sinal. A campainha toca para que elas se enfrentem.

Meritocracia ataca já com o que considera seu golpe mais poderoso. Apresenta-se como uma estrutura racional que permitiria reconhecer e recompensar as pessoas que mais mereceriam receber a recompensa.

Sua torcida, em coro, repete em uníssono:

— MEERIITOOCRACÍÍA!! MEERIITOOCRACÍÍA!!

Mérito, porém, não se abala. Sua defesa é quase blasé: as estruturas nunca seriam isentas. Para serem estruturas justas e premiarem quem de fato é digno de recompensas, seria preciso que partissem de bases igualitárias ou, ao menos, equitativas de disputas. Essas condições tendem a não ser possíveis na gigantesca maioria das ocasiões e praticamente nunca em situações complexas. O que Meritocraciaoferece seria, portanto, uma situação injusta por princípio – estruturas que já surgiriam para recompensar seus preferidos!

Os torcedores do Mérito se locupletam. Brindam. Sorriem. Confabulam. Manifestam-se. Protestam contra a torcida adversária:

— Iludidos! Ingênuos! Vão estudar!!

Alguém mais exaltado grita:

— FASCISTAS!

Lá no fundo, um senhor de óculos redondos comenta para quem está próximo:

— Aliás, foi esse o verdadeiro significado que Michael Young quis dar ao termo Meritocracia quando o criou. É uma crítica, uma sátira!

Meritocracia insiste no ataque. A falta de uma estrutura é que se apresentaria como uma injustiça por si. É um fato da existência, e uma máxima da economia, que os recursos são finitos. Recompensas precisam chegar aos poucos que irão recebê-las, e a falta de critérios que distingam quem as faça por merecer possibilitaria que elas fossem distribuídas ao bel-prazer daqueles em cujas mãos os recursos estão.

A torcida meritocrática vibra:

— Corrupção! Sem meritocracia é corrupção!!

Logo alguém puxa o coro e é seguido por muitos:

— COMUNISTAS! LADRÕES!!

Dessa vez, Mérito sente o golpe. É difícil não concordar que qualquer distribuição que não atenda a todos terá seus preferidos. Vai às cordas!

Mas Mérito, antiga, busca na sua própria essência a força para rebater: já que é preciso lidar com essa difícil condição, que se reconheça que o direito de buscar o merecimento seja o mesmo para todos. E, nesse caso, qualquer disputa deveria ser contextualizada e discutida democraticamente.

E então toma a iniciativa, dando um golpe poderoso: Meritocracia nem sempre seria usada para selecionar quem é mais merecedor, mas para justificar e validar as recompensas usurpadas por aqueles que delas se apropriaram em disputas injustas!

A plateia vai à loucura:

— FASCISTAS! HIPÓCRITAS! LADRÕES!

Aquele que chegasse ao estádio das disputas simbólicas teria a impressão de ver as torcidas organizadas em cores, vermelho de um lado, azul ou amarelo de outro. Tenderia a chamar uma torcida de esquerda, e a outra de direita. Pensaria que se trata de questões ideológicas, ou até partidárias.

Mas, se conseguisse sobreviver aos apelos efusivos de ambas as torcidas para que de alguma delas tomasse parte e, caso conseguisse manter — mesmo com o esforço hercúleo e quase impossível para tal — um distanciamento analítico, seria capaz de perceber outro tipo de classificação.

Veria que, em ambos os lados da plateia, as pessoas se dividem entre aquelas que consideram a recompensa como um recurso para o qual se olha antes que seja distribuída e outro grupo que considera a recompensa um recurso para o qual se olha depois da distribuição.

Uma perspectiva de tempo! Que acaba por remeter a outros dois termos que nem costumam ser considerados nessa disputa: a justiça e a justificativa!

Em ambos os lados existem aqueles que querem que as recompensas sejam elementos que incentivem e premiem aqueles que são dignos de recebê-las, e aqueles que buscam uma explicação que valide os recursos de que, no passado, se apropriaram.

Caso existisse outro termo mais apropriado ao direito de merecer, talvez houvesse uma nova distribuição das arquibancadas.

Enquanto isso, as pobres palavras são usadas em disputas, constrangendo aqueles que buscam se ater aos seus verdadeiros significados, mas regozijando aqueles que, em atendimento às suas conveniências, as usam como flâmulas incendiárias.